Famílias da comunidade do Marimba vivem em cima de balsa, onde tudo é dividido
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| Para amenizar o calor, famílias tentam refrescar chão da balsa onde estão erguidas dezenas de barracas que servem de moradia a desabrigados |
Os
desafios da população do Amazonas que mora às margens dos rios e
enfrenta uma cheia histórica ultrapassaram os improvisos dentro de casa.
As marombas não foram mais suficientes para que os ribeirinhos do
Município de Careiro da Várzea (a 25 quilômetros de Manaus) conseguissem
conviver com a enchente. Dezenas de famílias da comunidade do Marimba
esperam as águas do rio Solimões baixar seguindo com o cotidiano em cima
de uma balsa, dentro de barracas e sob o sol forte da Amazônia.
Na
balsa-abrigo da comunidade do Marimba estão abrigadas 20 famílias
vencidas pela subida das águas e que, pela primeira vez, tiveram que
abandonar as casas alagadas. “Não esperávamos que subiria tanto. Em 2009
foi uma grande cheia, mas conseguimos permanecer em casa, sobre as
marombas. Neste ano, as águas estão acima do nível da janela da minha
casa”, relata a moradora Ocirene de Oliveira, 36.
Algumas
mudanças, acompanhadas por A CRÍTICA, foram necessárias para que as
vítimas desta enchente pudessem se adaptar ao modo de vida provisório:
elas dividem o pouco espaço da cozinha improvisada na hora das
refeições, os dois banheiros químicos e a água apanhada do rio e
armazenada numa caixa d’água para tomar banho e cozinhar. Mas um dos
desafios mais difíceis é suportar o calor de mais de 35º durante o dia.
“É estressante ficar nesse calor extremo, mas não temos outra opção.
Precisamos que suportar por necessidade. Nossas casas estão alagadas”,
conta Daniel Nascimento, 14.
Pela
parte da manhã é preciso resfriar o chão da balsa com a água do rio,
pois o forte sol na estrutura de ferro provoca uma sensação térmica no
corpo humano de 40º. Na cozinha, quatro fogões são usados de maneira
coletiva. Também são quatro geladeiras compartilhadas entre as famílias
para conservar alimentos, como peixes, e armazenar a água tratada com
hipoclorito de sódio, usada para beber e cozinhar. Compartilham, ainda, a
mesa para as refeições e, quando não, é necessário comer sentados no
chão das barracas.
Calor Extremo
O
calor amazônico também impera dentro dessas moradias, mas sem terem
para onde ir, os ribeirinhos buscam driblar o problema às suas maneiras.
“De manhã a gente levanta a lona das barracas para que o vento
refresque por dentro delas”, explica dona Maria de Lima, 56. Somente à
noite, o clima na balsa-abrigo fica mais agradável e suportável.
Na
balsa-abrigo do Marimba, os sorrisos das crianças chamam a atenção de
quem está ali de passagem. Muitas ainda desconhecem que a vida delas
depende do ciclo das águas. Para se divertir, também tiveram que adaptar
as brincadeiras em meio a um espaço limitado.
Ao
invés do jogo de futebol, o passatempo chama-se “jogo de saco”. O risco
de vários sacos de alimentos como macarrão, arroz e bolachas -
enrolados e amarrados - caírem no rio com os dribles no jogo é bem menor
se comparado ao de uma bola. “Sentimos falta de jogar futebol no campo.
E dá para brincar assim mesmo”, lamentou Josiel, 9. “Quero que o rio
comece a descer logo pra voltar pra casa e brincar de bola”, contou o
pequeno Denilson, 7.
Numa paisagem
tomada pelas águas, os sorrisos dos pequenos ribeirinhos também carregam
a ansiedade pela visita de pessoas dispostas a ajudá-los. Além de
alimentos não perecíveis, roupas e sapatos também são doados e fazem a
alegria das crianças que tem somente um desejo: voltar para casa.
Personagem - Allan Kardec Morador do Marimba
Morador
há 56 anos do Marimba, seu Allan nunca tinha visto uma cheia como esta
na comunidade. Ele lamenta pelos prejuízos e critica a falta de ação do
poder público para evitá-los. “Essa é a primeira enchente em que tive
que sair de casa. Infelizmente, por muitas vezes as autoridades só
lembram das pessoas que moram nessas comunidades quando o desastre já
aconteceu. Ou prometem soluções em época de candidatura. Esperamos ações
que sejam realizadas durante o mandato e que possam evitar esses
transtornos. Estamos agradecidos por essa ajuda do Governo (do Estado),
mas ainda é preciso repensar soluções para o período de cheia em nossa
região.”
Segundo ele, a cheia na
comunidade do Marimba surpreendeu os moradores. “Geralmente o rio sobe
acelerado aqui somente durante o mês de maio. Mas este ano a subida das
águas se antecipou e foi longa. Esperamos que até meados de julho
possamos voltar para as nossas casas e nos prepararmos para a próxima.”

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