Reportagem especial de A Crítica mostra as condições críticas do maior curso d’água de Manaus desde a nascente limpa na Zona Leste
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| Moradora do Bairro São Jorge, Zona Oeste, joga lixo no igarapé |
A
caminhada de dez minutos no meio da floresta leva a um pequeno matagal
de onde brota um olho d'água. O cenário é idílico. Uma pequena elevação
no terreno represa a água e forma uma piscina natural cujo fundo é uma
“cama” de mata verde que parece dançar ao ritmo das águas. É nesse
pequeno éden que nasce o mais extenso e um dos mais emblemáticos
igarapés de Manaus: o Mindu. O cenário em nada lembra o atual imaginário
coletivo em torno deste igarapé em que só há lugar para águas poluídas e
fétidas. Ali, as águas são límpidas, frescas e saudáveis. Mas não por
muito tempo.
As
nascentes ficam dentro do Parque Municipal das Nascentes do Mindu
(PMNM), uma unidade de conservação com pouco mais de 16 hectares. O
parque foi criado em 2007 numa tentativa desesperada de preservar, ao
menos, o “berço” do igarapé. À época, a região onde se concentram as
nascentes estava tomada por moradores da então invasão Cidade de Deus,
Zona Leste. Oficialmente, para chegar à nascente do parque é preciso
ter autorização da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e
Sustentabilidade (Semmas). Na prática, qualquer um entra.
Sujeira
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| Água do igarapé é transformada em lixão (Foto: Márcio Silva) |
Da entrada do parque
até as nascentes, é possível ver sacos plásticos, embalagens, e outros
tipos de lixo espalhados pela mata. “Cercamos o parque, mas os moradores
continuam entrando. É difícil controlar. Somos poucos e muita gente
vive no entorno”, diz o administrador do parque, Rômulo Fernandes.
A
nascente mais próxima logo surge no caminho. Trata-se de um olho d'água
que mina sem parar escondido entre folhas e uma touceira. A água,
tímida, vai escorrendo por um leito de folhas e galhos até encontrar um
areal branco. “Pode beber a água que não tem problema, aqui é potável”,
diz a pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
(Inpa), Hillândia Cunha Brandão.
As
medições são feitas com análises do PH (acidez), níveis de oxigênio e
exames que detectam os coliformes fecais encontrados nas amostras. Ao
longo de 24 quilômetros, o Mindu tem apenas um ponto em que a água é
potável: No nascedouro.
O
problema no berço não é o lixo que se encontra pelas trilhas, mas mais
que uma ameaça, esse lixo é apenas um indício de que algo vai mal por
ali. Depois de escorrer e encontrar o início de seu leito, o Mindu segue
cortando o parque até encontrar as águas de um pequeno córrego. De cima
de uma pequena ponte de madeira, a diferença de tonalidade entre as
duas águas é evidente. A do Mindu, recém-nascido, é límpida, enquanto a
do córrego, carregado do esgoto das casas do entorno do parque é turva e
fétida. “Construímos uma estação de tratamento de esgoto, mas a
situação aqui é muito complicada. Os moradores despejam o esgoto
diretamente no córrego”, afirma Rômulo.
Entorno
Se
nem dentro do parque o Mindu tem descanso, é fora que ele sofre um
acelerado processo de degradação ambiental. Os muros quebrados do parque
não delimitam apenas o seu final, mas também o “salvo conduto” para que
a população do entorno o utilize como lixeira pública.
As
casas da região não são atendidas pela rede de esgoto. Quem não tem
fossa séptica, despeja seus dejetos em valas que, invariavelmente, vão
desaguar no Mindu.
A
dona de casa Fernanda Souza, 19, desce as ladeiras do bairro carregando
uma sacola de lixo que ela joga nas margens do igarapé, que a essa
altura tem menos de dois metros de largura e menos de 20 centímetros de
profundidade mas cujas águas já adquiriram um tom cinzento.
“O
caminhão do lixo não chega até onde eu moro, principalmente quando
chove. Sei que é errado, mas o que é que a gente vai fazer com o lixo,
então?”, indaga.
Água
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| O igarapé sofre com a poluição no Bairro Parque Dez, Zona Centro-Oeste (Foto: Márcio Silva) |
A
pesquisadora Hillândia Cunha Brandão fez testes para medir os níveis
de acidez, oxigênio e coliformes fecais em três diferentes pontos do
igarapé. Os resultados indicam que ele encontra-se em estado gravíssimo e
que a principal ameaça à sua sobrevivência é o despejo de esgoto sem
tratamento em suas águas.
“Na
nascente o igarapé apresenta ótimos índices. A água é considerada
própria para banho. Nos outros pontos em que as medições foram feitas
(Parque do Mindu, e bairro da Glória), o resultado aponta para uma água
de péssima qualidade, imprópria para banho e para consumo”, completa.
Os
resultados dos testes feitos pela pesquisadora revelam uma tendência já
apontada por pelo menos três estudos divulgados entre 2011 e 2012 sobre
a qualidade das águas em Manaus. Segundo o estudo “Panorama da
Qualidade de Águas Superficiais do Brasil” feito pela Agência Nacional
de Águas (ANA), Manaus produz 67 toneladas de esgoto todos os dias.
Dados do Ministério das Cidades indicam que apenas 11% desse esgoto é
coletado e que somente 38% do que é coletado passa por algum tipo de
tratamento. Cruzando os dados, é possível dizer que apenas 4,17% de todo
o esgoto de Manaus é tratado. O restante, é jogado in natura em
igarapés como o Mindu.
De
acordo com a Secretaria Municipal de Limpeza e Serviços Urbanos
(Semulsp), não há dados oficiais sobre a quantidade de esgoto despejada
no Mindu. Mas de acordo com o diretor da organização não-governamental
Fundação Vitória Amazônica (FVA), Carlos Durigan, o Mindu é um dos
igarapés mais impactados de Manaus. “Como ele é o mais extenso e corta
regiões altamente povoadas como a Zona Leste, o Mindu recebe os dejetos
de uma grande parcela da população da cidade”, analisa o dirigente.



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