Pagar a universidade dos filhos é obrigação dos pais? Questão divide opiniões de especialistas
O economista André
Furtado Braz, da FGV-RJ, acredita que a família deve se preparar para
essa despesa. “É responsabilidade dos pais arcar com toda a formação dos
descendentes, o que deve ocorrer do maternal ao ensino superior”, diz
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| Pagar a universidade dos filhos não é dever dos pais? Use o campo de comentários e opine |
De
acordo com pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), a
participação de jovens com idade entre 18 e 24 anos no mercado de
trabalho caiu 0,5% de março de 2011 para março de 2012. No ano passado,
15,4% dos jovens estavam inseridos no mercado de trabalho. Já nesse ano,
essa porcentagem foi de 14,9%, o que equivale a 69 mil a menos
trabalhando e oito mil a menos procurando emprego. A justificativa é de
que há maior valorização da educação. Para conseguir investir em uma
formação qualificada, muitos desses jovens contam com o apoio dos pais
para pagar as despesas com o estudo.
O
economista André Furtado Braz, da FGV-RJ, acredita que a família deve
se preparar para essa despesa. “É responsabilidade dos pais arcar com
toda a formação dos descendentes, o que deve ocorrer do maternal ao
ensino superior”, diz. De acordo com Braz, para se tornar um
profissional competitivo, o curso de ensino superior deve ser feito,
sempre que possível, com dedicação exclusiva. “Com tal disponibilidade, o
aluno aproveitará melhor o curso e seu rendimento acadêmico será
maior”, afirma.
Mãe de três filhos,
dois deles cursando o ensino superior, a enfermeira Luciane Martinez
Cavana, 47 anos, acredita que os pais devem apoiar e dar condições para
que os filhos se formem. “Sempre fomos exigentes e meus filhos sabem que
precisam fazer a parte deles para valorizar o nosso esforço", diz
Luciane. "Um jovem que pode estudar sem a pressão de ter que trabalhar
para bancar a mensalidade pode se tornar um profissional melhor”.
A
psicóloga Ana Paula Mallet Lima, da Universidade Federal de São Paulo
(Unifesp), também acredita que a responsabilidade em apoiar e manter os
filhos na universidade deve ser dos pais. “Nem sempre o jovem consegue
uma vaga em uma universidade pública. E se os pais não o ajudam, ele
pode optar apenas por trabalhar e ganhar dinheiro, deixando o estudo de
lado”, afirma. A especialista defende que é injusto para o jovem arcar
com essa despesa. “Trabalhar e estudar é um desgaste enorme. Muitos
jovens acabam desistindo de sua verdadeira vocação e acabam optando por
fazer um curso menos pesado apenas para ter um diploma. Isso pode gerar
profissionais frustrados”, afirma a psicóloga. Para Ana Paula, o pai que
não pode bancar os estudos do filho em uma universidade deve ajudá-lo a
conquistar uma bolsa ou ajuda governamental junto ao Ministério da
Educação (MEC). “Os pais têm que correr atrás e não podem jogar essa
responsabilidade nas costas de um jovem”, afirma ela.
O
vendedor autônomo Carlos Augusto Devienne, 59 anos, pai do estudante de
física José Augusto, 18, tomou essa atitude. Seu filho estuda em uma
universidade pública em outra cidade, o que envolve despesas difíceis de
manter, como moradia, transporte e alimentação. "Orientei meu filho a
buscar todas as formas de bolsa possíveis para aliviar a situação", diz
Devienne. O plano deu certo, e o filho conseguiu uma bolsa para realizar
um trabalho de pesquisa acadêmica. "É importante que ele tenha
responsabilidade sobre suas despesas, pagas com o fruto de seu trabalho,
para que aprenda a dar valor às coisas que tem", diz o vendedor. "Mas
acho que não seria justo submetê-lo ao rigor de ter que trabalhar à
noite, pois isso o impediria de se dedicar aos estudos e prejudicaria o
descanso noturno”.
Ajuda sim, obrigação não
Para
o psicólogo Maurício Vaz Pinto, os pais não têm a obrigação de pagar os
estudos dos filhos. Isso porque, segundo ele, está sendo criada uma
geração de jovens que não está habituada a ouvir um "não". “É assim que
se formam adultos que lidam mal com frustrações e podem se acomodar,
pois não têm condições nem se sentem preparados para buscar o que querem
com as próprias mãos”, diz. Por isso, se os pais não podem assumir tal
compromisso financeiro, é importante que sejam verdadeiros com os
filhos. “Estimulem os filhos a buscar suas próprias conquistas, que
serão mais valorizadas do que a dos jovens que tiveram tudo ‘sem
esforço’”, afirma Vaz Pinto.
Para a
consultora em finanças pessoais Suyen Miranda, ao pagar a faculdade, os
pais estão investindo na capacitação dos filhos para prosperar. “Mas
isso não deve ser encarado como obrigação”, diz. Para Suyen, a ajuda os
pais é válida se os filhos trabalham, mas a renda ainda não alcança o
valor total da mensalidade. “É importante que pais e filhos cheguem a um
consenso sobre como irão bancar as despesas”, afirma.
O que vale para um, vale para outro
Para
quem tem mais de um filho, fica um alerta: o que foi feito para um,
deve ser repetido para o outro. “Predileção por um filho gera sofrimento
em família. Portanto, se os pais assumem a postura de bancar ou ajudar
no estudo da universidade de um, devem se programar para repetir o ato
para todos”, afirma Ana Paula.
Independente
de pagar o valor total ou parcial, é fundamental que os filhos entendam
que o estudo é um comprometimento e precisa ser levado a sério. “Os
pais devem cobrar resultados dos filhos sempre, desde os deveres
escolares. Devem também incentivar e ser um exemplo para os filhos”,
afirma Suyen. Para a consultora em finanças pessoais, a verdadeira
obrigação dos pais é preparar os filhos financeiramente, dando limites,
cobrando economia, responsabilidade e resultados na relação com o
dinheiro.

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