Cientistas do Inpa analisam índice de comportamento
do Oceano Pacífico, cujas fases frias e quentes têm reflexos nas cheias
amazônicas. Segundo eles, o oceano passa por uma fase fria que, se
continuar, vai tornar as cheias mais frequentes
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| Em 1953, população passeava, de barco, em frente ao prédio da Alfândega |
Além dos fenômenos El Niño e La Niña, que interferem nas cheias
e vazantes dos rios amazônicos, dois cientistas do Instituto Nacional
de Pesquisas da Amazônia (Inpa) analisam um outro índice, do Oceano
Pacífico equatorial, que é a oscilação Decadal cujas fases frias e
quentes têm duração de 20 a 30 anos. No período de 1935 a 1945 do século
passado houve uma fase fria, o que contribuiu para cheias como a de
1953, a maior até a ocorrência da de 2009.
“Agora,
estamos entrando uma fase fria do Pacífico, ou seja, se esse frio
continuar, as cheias poderão se tornar mais frequentes”, advertem os
pesquisadores Maria Teresa Fernandez Piedade, 60, e Jochen Schongart,
43.
Doutora
em ecologia, Maria Teresa, mais conhecida como Maitê, e Jochen, doutor
em florestas, trabalham num grande projeto de análise de mais de 6 mil
árvores na bacia amazônica, com o objetivo de reconstruir as informações
sobre o chamado “pulso” das águas, ou seja, a subida dos rios.
“Analisamos o crescimento de árvores dos igapós, em terras pretas, a
partir dos caules. Nossa meta é fazer a análise dos últimos 400 anos
para ter informações sobre a variabilidade natural desse regime”, disse
ela, explicando que, a partir do momento em que se tornarem conclusivas,
as pesquisas vão indicar se esses eventos são regidos por forças
naturais ou e se são fruto da interferência do homem na natureza.
Ao
citarem análises em árvores amazônicas com mais de 400 anos, que
revelam não só as marcas deixadas pelas águas, mas também os tipos de
sedimentos trazidos por elas dos Andes, que é uma região jovem se
comparada à Amazônia, Maitê e Jochen afirmam que saber ler e interpretar
essas informações dará parâmetros para se chegar a conclusões mais
precisas sobre as alterações nessas áreas.
A
pesquisa, segundo Maitê e Jochen, tem que estudar outras bacias e
cabeceiras de rios para entender melhor se esses eventos mais fortes já
são manifestação de mudanças climáticas causadas pelos serem humanos.
“Como os registros existentes são de 107 anos, feito no Porto de Manaus,
precisamos de mais informações para saber, por exemplo, quais os pulsos
das inundações anteriores”, revelou o pesquisador.
Para
Maitê, não é possível ver qualquer benefício numa enchente como a deste
ano, que só pode ser comparada a uma catástrofe, pois em nada vai
favorecer a população e nem a natureza, na medida em que os sedimentos
importantes trazidos dos Andes ficarão presos nas partes inferiores das
planícies alagadas ou se perderão diluídos nas muitas águas.
Outro
fator lamentável, para ela, é quantidade de famílias atingidas. “As
perdas econômicas e sociais são enormes”, garante. Nesse aspecto, tanto
Maitê quanto Jochen lembram os alertas dados sobre a intensidade da
cheia deste ano, feito com dois meses de antecedência, pelo Inpa,
divulgando resultado das medições feitas pelos cientista e indicando que
a cota chegaria à casa dos 30 metros. “A ciência tem ferramentas que
nos permitem saber da ocorrência de eventos como esse com esse período
de antecedência. Apresentamos isso em meios científicos e em órgãos do
governo, tanto federal, estadual e municipal, mas as ações só
aconteceram quando as famílias já estavam com a água dentro de casa”,
afirmaram. Maitê e Jochen lamentaram que as informações, agora
confirmadas, não provocaram ações do poder público de ordem preventiva,
mas apenas mitigadoras.
Ciência deve ser ferramenta
Os pesquisadores do Inpa, Maitê Piedade e Jochen Schongart afirmam que a ciência é uma das ferramentas à disposição dos políticos para se antecipar à remoção de pessoas no caso se catástrofes como a enchente deste ano. Além disso, serve para evitar perda total dos cultivos em áreas de plantios, fato que há já está sendo utilizada pela Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SDS) e outros órgãos como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama).
Os pesquisadores do Inpa, Maitê Piedade e Jochen Schongart afirmam que a ciência é uma das ferramentas à disposição dos políticos para se antecipar à remoção de pessoas no caso se catástrofes como a enchente deste ano. Além disso, serve para evitar perda total dos cultivos em áreas de plantios, fato que há já está sendo utilizada pela Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SDS) e outros órgãos como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama).
Cada
vez mais, dizem Maitê e Jochen, se torna imperativo prestar atenção nos
sinais da natureza. Apesar de extremos, eles têm sido cada vez mais
claros. Exemplo disso, segundo Jochen Schongart é a constatação de que
em 25% dos casos, o pico da cheia Cota A última medição feita apontou o
rio Negro com 29,81m, na sexta-feira. Apesar da redução do ritmo de
subida das águas, que no início da semana era de 3cm/dia, a enchente
deve continuar até meados de junho.

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