(Maurício Adu Schwade. Economista)

Há
milênios centenas de povos habitam a Amazônia. Durante a história (uns
diriam pré-história) os indígenas estabeleceram sistemas econômicos
baseados no manejo dos ecossistemas naturais e em cultivos capazes não
apenas de coexistirem com ecossistemas naturais, como também de
enriquecê-los. Aliado a isto desenvolveram redes de intercâmbios de
produtos bastante sofisticados, como o Manako praticado por diversos
povos dos Rios Purus e Juruá. Estes sistemas econômicos foram capazes de
gerar grande abundância de produtos. Fr. Carvajal, cronista da
expedição de Orellana, ao chegar numa aldeia no ano de 1540 escreve:
“grande quantidade de carne, peixes e biscoitos, tudo com tanta
abundância que era suficiente para alimentar uma força expedicionária de
mil homens durante um ano inteiro” (CARVAJAL. Descubrimiento del Rio de
las Amazonas).
Essa diversidade foi possível graças ao desenvolvimento de tecnologias
de manejo e cultivo. Centenas, talvez milhares de espécies vegetais
foram domesticadas, entre elas a macaxeira, o milho, o tomate, a batata,
a pupunha e tantas outras. Também se criou tecnologia de utilização de
diversos outros produtos como o açaí, a bacaba, o buriti e a copaiba.
Com
o processo da conquista européia esta fartura parece ter deixado de
existir gradativamente. Período após período menos registros se fez
sobre tal produção. Os registros da economia da Amazônia foram então se
estabelecendo com base nos valores das exportações de produtos que
tinham um “bum” e depois decaiam. Pouco se sabe sobre como as populações
locais sobreviviam quando não estavam sendo exploradas por sistemas de
produção para exportação dos produtos.
Alguém
que se dedique a verificar com cuidado os dados históricos poderá
verificar que existe um paradoxo entre os dados econômicos oficiais e a
situação de bem estar da maioria da população amazônica: Quanto maior a
economia, maior a fome e a degradação social.
Na atualidade,
andando pelos recantos da Amazônia, se nota muitas zonas de bastante
miséria. Mas também é possível encontrar muitos lugares onde a população
consegue gerar abundancia de alimentos e de alegrias, independente de
estarem ligadas a mercados externos.
Extremamente acuadas pela
pressão do capitalismo, as formas de produção que deram origem já
naqueles tempos a tamanha fartura continuam a existir. O problema de sua
invisibilidade é primeiro um desinteresse político de quem vê a
ecomonia apenas como crematística. Crematística é a arte de fazer
dinheiro. “Como arte de adquirir, a economia se limita à obtenção dos
bens necessários à vida e úteis a família ou ao Estado. ‘A verdadeira
riqueza consiste nesses [leia-se nos] valores-de-uso’ [...]. A
crematística distingue-se da economia, por ser a circulação para ela a
fonte de riqueza”. (Aristóteles apud MARX, O Capital, Livro I – O
Processo de Produção do Capital).
Um segundo fator é a falta de mecanismos e instrumentos de mensuração destas economias.
O
fato dos economistas e dos governos fecharem os olhos para estas
possibilidades de produção fora do mercado de exportação e de não
enxergarem as pessoas do interior do Estado como sujeitos e como gente
com direitos, continua ampliando a miséria e a fome.
A visão meramente crematística não dá conta de atender as necessidades
da sociedade como um todo e, em inúmeros casos, tira o direito de
populações inteiras do acesso à condições básicas de vida digna. Além
disto, tem causado profundos desequilíbrios ambientais que ameaçam
inclusive a existência da espécie humana no planeta. “Não é possível que
a economia vá bem se as pessoas estão mal e se a ecologia está ruim”
(ALIER, Da Economia Ecológica ao Ecologismo Popular). Diante da
diversidade Amazônica devemos, em especial, os economistas, sermos
criativos a ponto de criar formas de perceber e apontar caminhos que
garantam segurança e esperança para um futuro bonito, alegre e de
fartura. (Casa da Cultura do Urubuí/Amazonas)

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