Tradição pesqueira garante alimento e renda para mais de 80 mil ribeirinhos
| Mais de 80 mil ribeiros vivem da pesca no rio Negro |
Gigante
pela própria natureza, o internacional Rio Negro que nasce na Colômbia,
possui 1700 km de comprimento e é considerado o rio de águas escuras
mais extenso do mundo, e o segundo maior em volume de água, com uma
biodiversidade imensurável. Diversa também é a cultura das comunidades
que desenham seu contorno Amazônia adentro. Além das festas de
padroeiros, dos torneios de futebol, das histórias de curupira, da
medicina curandeira de ervas, raízes e cascas nativas, e do linguajar
próprio, existe uma prática tradicional que vem desse afluente, a pesca
artesanal. São mais de 80 mil ribeirinhos que vivem desse ofício no
Estado do Amazonas, segundo o Secretário Estadual da Pesca, Geraldo
Bernardino.
Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro,
a qual abrange os municípios de Iranduba, Manacapuru e Novo Airão, foi
realizada uma pesquisa de perfil econômico dos ribeirinhos pela empresa Action,
em 2010. O estudo deteve-se à região de Iranduba e Novo Airão, por lá
estarem concentradas as principais 19 comunidades da RDS. A pesquisa
revelou que, o peixe é o produto mais extraído para a subsistência,
representando 27,1%. E que 51,4% das famílias têm a pesca como principal
fonte de renda.
Segundo
o secretário Bernardino, ainda é pouco o que o pescador do Rio Negro
consegue arrecadar. Para ele, essa classe de trabalhadores é merecedora
de mais investimentos para uma melhor estruturação de seu negócio, já
que no interior do Amazonas, o consumo per capto de peixe pode chegar a
20 vezes mais do que no restante do país. “Com tantos investimentos que o
Estado dedica a outros setores, o pescador merece mais atenção e até
mesmo ter sua própria empresa. Claro que para isso seria necessário uma
análise completa do tripé homem, água e peixe, bem como a discussão de
novas políticas para o cenário proposto”, completa. Quanto à renda na
RDS do Rio Negro, a pesquisa da Action, mostra que a média por família é
de R$497,20 mensal.
O
presidente da Associação das 19 Comunidades da Reserva, José Roberto
Nascimento, diz que hoje os pescadores estão mais atentos aos cuidados
com o meio ambiente em que vivem. “São poucos os problemas que temos com
nossos pescadores. A maioria quer apenas tirar seu sustento sem causar
dano à natureza para garantir que no próximo ano possa continuar
pescando. Aqui, a fiscalização é feita pelo ICMBio e CEUC,
com ajuda das comunidades”, explica. O presidente conta ainda que a
temporada de pesca na reserva é época de fartura, pois parte do que é
pescado, é distribuído entre os moradores de sua comunidade. “Assim o
ribeirinho garante um alimento saudável e nutritivo para sua família”,
afirma.
A pesca da espera
Entre
março e início de junho acontece a pesca da espera no Rio Negro,
período conhecido como fábrico, onde pescadores posicionam suas canoas e
redes às margens do rio, e lá passam 12 horas por dia, esperando os
cardumes de jaraqui e matrinxã. Na hora da captura, os botos se
aproveitam e às vezes deixam prejuízo rasgando a malhadeira.
Cada
um tem sua função, uma delas é a do vigia que fica em terra firme, no
alto de uma escada de madeira, esperando para avisar aos que estão na
canoa, quando o cardume se aproxima. Dado o aviso, os pescadores fazem o
lanço, recolhendo a rede em meia-lua e puxando-a para a canoa. Manobra
que requer força de até dez homens.
Tiago
Faria Ramos, já com 70 anos, há 39 dedica-se a pesca artesanal. Homem
sábio, trabalhador e desconfiado, não duvida de cobra grande e diz que
para entrar na mata tem que fazer acordo com curupira. “Sempre vivi e
trabalhei aqui. Não faço uso da preguiça para não deixar nem meus
filhos, nem minha mulher passando mal. A pesca traz dinheiro e alimento
para dentro de casa”, conta. Segundo ele, este ano a piracema não foi
maior por conta da cheia. Neste fábrico, sua equipe fez sete viagens
para a Feira da Panair, em Manaus, sendo que cada viagem leva entre três
a quatro milheiros de peixe, vendido para o feirante por a R$40 o cento
de jaraqui e em torno de R$6 a unidade do matrinxã.
Os
meses de pesca significam garantia de emprego para os ribeirinhos.
Nesse tempo eles têm refeição fornecida pelo chefe da equipe e ao fim do
fábrico dividem, conforme a função, o saldo em parcelas chamadas de
partes, cada parte é o que vale a aproximadamente R$ 700. Um membro da
equipe pode chegar a ganhar até cinco partes, dependendo de atribuição.
Como
um dos pescadores mais antigos e experientes da região, Tiago Faria é
um dos gerentes de sua equipe, além de ocupar o posto de vigia. “Não é
todo mundo que vê o peixe chegando. Tem que sentir o cardume vindo, às
vezes ele salta por cima da rede e outras, ele vem contra o banzeiro.
Tem que entender o movimento da água”, tenta explicar a técnica.
Ele
diz que aprendeu a pescar com um compadre, e não por coincidência tem o
nome e o ofício de um dos discípulos de Jesus. Tiago Faria pesca peixe
para seu sustento e homem para trabalhar com ele. Mas avisa que não é
muito insistente e a maioria das vezes é o interessado quem deve lhe
convencer de aceitá-lo no grupo que dirige. “Vai do interesse da pessoa,
para ser bom pescador tem que ser atento. Se ficar tirando o sujo da
unha e olhando para o porão da canoa não vai pegar nem um jaraqui”,
adverte cheio de humor.
O
secretário Bernardino lembra que a tradição da pesca de espera, assim
como outras praticadas no Amazonas, vêm perdendo a força devido às novas
aspirações dos pescadores. “A pesca artesanal é uma arte por se
diferenciar da agricultura, por exemplo. Não é apenas técnica. Prevendo o
seu enfraquecimento, precisamos investir em outras modalidades que
incluam as comunidades ribeirinhas, como a pesca esportiva”, esclarece.
Ele informa também que o turista que vem para o Amazonas interessado na
pesca esportiva, gasta uma média de R$ 5mil por semana. Valor esse que,
segundo o secretário, poderia ser direcionado a uma cadeia produtiva
desenvolvida nas comunidades ribeirinhas, formando guias de pesca
nativos, disponibilizando hospedagem, alimentação e transporte no
próprio local.
Os
comunitários pescadores, como explica o presidente das comunidades, são
incentivados a passarem seus conhecimentos de pesca aos mais jovens, os
quais também são motivados a estudar. “Sabemos da necessidade do
estudo, mas também não queremos que nossa tradição caia no esquecimento,
assim como não queremos precisar depender dos caros alimentos da
cidade, tendo tão perto, produtos bons e naturais para nosso consumo”,
defende. José Roberto diz que a pesca não dura o ano todo, depois do
fábrico, os pescadores assumem outras atividades, na agricultura, manejo
florestal, entre outras. Em junho, quando a pesca de espera encerra,
iniciam-se várias festividades nas comunidades da RDS do Rio Negro. Uma
das mais tradicionais é a Festa de São Pedro na Comunidade Saracá, onde o
professor Francisco Souza apresenta-se com seus alunos, para homenagear
os pescadores e seu padroeiro, e agradecer a boa safra.
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