O Governo do Estado anunciou anistia e renegociação de dívidas junto
Mas não é só o fenômeno da natureza que está batendo recordes (Foto: Arquivo) |
O
prenúncio de uma cheia recorde na região do baixo Amazonas tem como pano de
fundo o rastro de destruição que a enchente deste ano deixou na calha do rio
Madeira, e que agora a vagarosa descida das águas vai revelando. Cidades
alagadas, plantações submersas, casas destruídas, famílias desabrigadas.
Cenários que vêm se repetindo em um intervalo de tempo cada vez menor. Nos
últimos quatro anos, a cheia bateu recorde em quatro calhas de rios do Amazonas
– Branco, em 2011; Negro e Solimões, em 2012; e Madeira, em 2014.
No médio e baixo Amazonas, região que “recebe” o
volume de água dessas calhas, a última grande cheia aconteceu em 2009, quando o
rio chegou à marca de 9,45 metros. Este ano, a estimativa é que a cota máxima
seja superada entre os dias 8 a 10 de junho, segundo o coordenador de Defesa
Civil de Parintins, Suami Patrocínio. Na sexta-feira, estava em 9,30 metros. E,
se depender da enchente do rio Madeira, deve ser uma das maiores da série
histórica. “A água do Madeira está chegando, este ano tem tudo para superar a
de 2009”, analisou Patrocínio.
Prejuízos
Mas não é só o fenômeno da natureza que está
batendo recordes. Os estragos também. Em todo o Amazonas, mais de 230 mil
pessoas já foram atingidas pela enchente, 31 municípios declararam situação de emergência
e, dois, estado de calamidade pública, segundo a Defesa Civil estadual. Em Novo
Aripuanã (a 225 quilômetros de Manaus), que está em situação de emergência,
foram 1.198 famílias afetadas e mais de 600 desabrigadas pela cheia do rio
Madeira, que este ano superou a enchente recorde registrada em 1993 e atingiu a
cota de 25,63 metros.
Enquanto quem vive na calha do Amazonas acompanha,
com apreensão, a cheia nos outros rios, os moradores da calha do Madeira
esperam a água baixar para voltar para casa e contabilizar o prejuízo.
Aos 58 anos, o agricultor Raimundo de Queiroz
Filho conta que nunca viu estrago tão grande. Ele, que perdeu plantações de
açaí, mandioca, mamão, banana e cacau - inundadas e aterradas -, teve a casa
invadida pelas águas barrentas do Madeira e precisou se mudar com a família
para um barco, onde mora desde o dia 1º de abril. Fiz o assoalho da minha casa
20 centímetros mais alto do que a marca da enchente de 1997. Mas este ano o rio
subiu 55 centímetros acima do meu assoalho. Casa, plantações, tudo ficou
debaixo d’água”, disse Raimundo, que mora na comunidade Santo Amaro, zona rural
de Novo Aripuanã.
Da plantação dele, restaram apenas alguns pés de
cacau. Todo o resto foi destruído pela água e pelo barro, que aterrou os
roçados com o início da vazante. “Um prejuízo incalculável. É triste de ver”,
lamentou.
Casas destruídas pela água
Das mais de 600 casas atingidas pela cheia do rio Madeira na zona rural de Novo
Aripuanã, pelo menos 100 delas foram totalmente destruídas pela força da água,
que em muitos casos chegou a partir os imóveis ao meio e arrastá-los para o
meio do rio. Os dados são da prefeitura municipal.
Quem passa pela comunidade São Pedro custa a
acreditar no que a força da natureza foi capaz de fazer com a casa dos vizinhos
de Rodrigo Cabral, 26, dividida pela correnteza do Madeira. O cenário é de
assustar, e lembra mais uma cidade destruída por fenômenos como tsunamis e
furacões. “É impressionante”, comentou.
Casas tombadas, sem paredes, janelas, telhados e
assoalhos são inúmeras às margens do Madeira. Muitas delas terão que ser
reconstruídas. Em outros casos, uma reforma pode ser suficiente.
Pelo menos, é o que espera o agricultor Miguel
Pavão, 40, que após dois meses morando com a sogra, voltou para casa esta
semana. Ele conta que perdeu a plantação de macaxeira e cacau, mas tem
esperança de recuperar a casa. “A água arrancou muitas tábuas, vamos ter que
reconstruir tudo, mas tenho esperança que vai dar certo”, relatou ele, enquanto
levava os móveis e eletrodomésticos de volta para casa, com a ajuda do irmão.
Pontos
O Governo do Estado anunciou anistia e
renegociação de dívidas junto à Agência de Fomento do Estado do Amazonas
(Afeam) a produtores rurais que sofreram prejuízos com a cheia. Segundo o
Instituto de Desenvolvimento do Amazonas, as culturas mais afetadas foram:
banana, com perda de 84,7 mil toneladas; macaxeira (39,2 mil); mandioca (11, 8
mil); maracujá, (1,5 mil) e milho (1,1 mil).A Fundação Amazonas Sustentável
(FAS) também está realizando ações de saúde, distribuição de filtros e
hipoclorito, reconstrução de casas e distribuição de mudas e sementes. Segundo
a prefeitura de Novo Aripuanã, as famílias afetadas receberam 358 cestas
básicas, 1.150 kits com água e alimentos, 630 kits de higiene pessoal e 630 kits
dormitório (rede, toalha e lençol).
‘E a enchente do rio levou...’: Famílias da zona
rural perderam a safra do ano
Dramas como o de Raimundo Queiroz Filho se repetem
em todo lugar, ao longo das margens do rio Madeira. O agricultor Francinal
Rodrigues Coelho, 36, precisou deixar para trás a casa, na comunidade Zé João,
e mudar com a mulher e os três filhos para a residência de parentes, onde
espera o nível do rio baixar para que possam voltar à rotina. O mesmo aconteceu
com as outras 12 famílias que vivem nessa comunidade e mais de 600 em todo o
Município de Novo Aripuanã.
Mas o prejuízo vai muito além da reconstrução da
casa, que inevitavelmente vai precisar de reparos, uma vez que a correnteza do
rio Madeira é tão forte que arranca tábuas e joga árvores contra elas. A maior
preocupação de Francinal é com o sustento da família, que vem exclusivamente da
agricultura.
Como os outros, ele perdeu plantações de mandioca,
açaí, banana e cacau – carro chefe da economia local. Francinal relata que a
plantação de 3 mil pés de cacau foi inundada e que, das três toneladas que ele
esperava colher este ano, só conseguiu salvar 200 quilos. O resto foi por água
abaixo. Literalmente. “Dos R$ 20 mil que esperávamos lucrar com a venda da
nossa produção este ano, que era o dinheiro para sobrevivermos até a próxima
safra, só vamos conseguir R$ 1 mil, com a venda desse cacau que restou. Todo o
resto a água levou”, disse.
Com as plantações alagadas, Francinal precisou se
adaptar para colher o que restou nos poucos pés de cacau que sobreviveram à
cheia. Para salvar os frutos das formigas, que “invadiram” as árvores que
sobraram, ele passou a usar a canoa para colher o cacau, enquanto o nível do
rio não baixa. “É o jeito que a gente encontrou para o prejuízo não ser ainda maior
e poder levar alguma coisa para o sustento da casa. Mas precisa ter muito
equilíbrio”, contou.
Além das casas, os moradores das margens do rio
Madeira aproveitam a descida das águas para reconstruir e recuperar escolas,
que ficaram alagadas, e até igrejas, como a da comunidade Santa Maria. Mutirões
são feitos para lavar móveis, assoalhos e as paredes e, assim, tentar retomar a
rotina que tinham antes da cheia recorde.
Blog: Virgílio Viana - superintendente-geral da FAZ
“A atuação da Fundação Amazonas Sustentável (FAS)
em eventos extremos, como a cheia do rio Madeira, inclui ações de curto, médio
e longo prazo. No campo social, promovemos ações de saúde, com vacinação e
distribuição de filtros e hipocloreto. No campo econômico, a distribuição de
sementes de culturas que podem dar um retorno a curto prazo.
A longo prazo,
promover a discussão, entre os próprios ribeirinhos, sobre adaptação e mudanças
de estratégias na produção rural. Em vez de levarmos a solução, levamos um
debate. Temos que estimular esse debate também junto às prefeituras, governos
federal e estadual, para que essa não seja uma agenda apenas emergencial, mas
estruturante e relacionadas aos eventos climáticos extremos”.
Jornal a Crítica
Nenhum comentário:
Postar um comentário