A população negra começa a desfrutar da verdadeira liberdade ao ganhar mais espaço na sociedade e a ter mais oportunidades, sejam elas nos estudos ou no mercado de trabalho
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Alunos da escola municipal Sônia Maria Barbosa, na Cidade de Deus, refletiram sobre a presença e a contribuições dos negros para a formação cultural do Brasil |
Há mais de
120 anos os negros receberam a carta de alforria da escravidão no Brasil, mas
só hoje a população negra começa a desfrutar da verdadeira liberdade, ao ganhar
mais espaço na sociedade e a ter mais oportunidades, sejam elas nos estudos ou
no mercado de trabalho.
Negra,
carioca e secretária municipal de Educação, Katia Schweickardt, é um exemplo de
superação. Apesar do preconceito existente, embora no DNA dos brasileiros (e
dos amazonenses) os genes dos negros estejam bem presentes, ela seguiu pela contra-mão
e conquistou um lugar de destaque.
“Ser mulher, negra e ser secretária de
Educação é muito difícil para mim porque as mulheres ainda são minoria, seja no
mundo da política ou da gestão, e principalmente sendo negra. Mas acredito que
a consciência das pessoas sobre o ‘ser negro’ está mudando e a prova disso é
que, hoje, já somos a maioria no país. Não porque mais negros estão nascendo,
mas sim porque estamos nos autodeclarando mais, se identificando com o nosso
tom de pele”, analisou ela.
De acordo com o último levantamento da
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), 53% dos brasileiros se autodeclararam negros os
pardos em 2014. Há 10 anos, os brancos eram os dominantes (51%).
Ações afirmativas durante semana
Na semana da Consciência Negra, encerrada
neste sábado, diversas atividades foram realizadas, em Manaus, para lembrar a
data que faz alusão à morte de um dos principais líderes negros na luta contra
a resistência da opressão dos portugueses, Zumbi dos Palmares.
Na escola municipal Sônia Maria Barbosa, no
bairro Cidade de Deus, na Zona Norte, alunos entre de 11 a 17 anos participaram
da I Semana da Consciência Negra, que teve como objetivo discutir sobre a
contribuição dos africanos tanto para a história quanto para a cultura
brasileira.
De acordo com o sociólogo e organizador do
evento, Francinézio Amaral, a formação cultural do País está diretamente
relacionada aos negros e com a miscigenação dos povos.
“A herança dos negros está na culinária, na
música, na dança, na religião, no comportamento. E a nossa luta é para que esta
luta pela consciência deixe de ser apenas em um dia, mas seja no dia a dia
porque a negritude é base da nossa formação social. Ser negro não é demérito para
ninguém”, reforçou o professor.
O diretor da instituição, José Davi Santos,
também lembrou que o preconceito muitas vezes está disfarçado e que precisa ser
combatido para que a sociedade seja mais justa. “Nós temos no DNA a
miscigenação dos povos, esse disfarce em piadas de mau gosto ou em apelidos
pejorativos, devem ser combatidos, porque às vezes eles são os geradores de um
preconceito maior”, afirmou.
Desigualdade ainda é barreira
Para a secretária municipal de Educação, Katia
Schweickardt, embora a mentalidade das pessoas esteja mudando, as desigualdades
sociais ainda são um das principais barreiras a serem vencidas. Na opinião
dela, por exemplo, a política de cotas para negros entrarem na universidade e
em concursos públicos deve ter uma data de validade.
“Essa política tem que ter uma data de
término. Ela ainda é muito importante para corrigir uma distorção social, que
foi causada pela falta de oportunidades que os negros sofreram durante muito
tempo. Mas a longo prazo ela deve acabar. Para isso, temos que garantir uma
educação de qualidade paras as populações mais empobrecidas, que concentra a
maioria da população negra. É a educação que vai fazer a diferença no futuro”,
afirmou.
E para Schweickardt, as desigualdades sociais
existem não por causa do tom da pele, mas pela falta de oportunidades. “Quando
temos mais oportunidades, não é a cor da pele que é o limitante. Nós estamos
melhorando nesse processo e o Brasil já evoluiu bastante, nesse sentindo”,
opinou a secretária.
Kaká Bonates, pesquisador e mestre de capoeira
“Setenta por cento dos
escravos que vieram para cá, eram bantos. E a cultura trazida por eles foi tão
forte que está dissiminada e as pessoas nem percebem que a praticam. A
influência está na fala, como nas palavras maxixe, quiabo, caçula; está na
dança, na música, e a capoeira é um exemplo disso, e está até na religião. No
entanto, algumas correntes neopentecostais reforçam o preconceito e é preciso
ter muito cuidado com isso. Temos que tirar o véu da visibilidade e a educação
é o primeiro passo para isso. O Brasil tem a segunda maior população negra do
mundo e o preconceito racial chega a ser contraditório”.

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