domingo, 22 de abril de 2012

Primeiro indígena a se formar pela Ufam incentiva outros a procurar formação acadêmica

‘Eu sempre quis estudar. Isso marcou a minha vida’ , revelou o índio tukano João Rivelino Rezende

Barreto incentiva estudantes indígenas a procurarem formação acadêmica
Barreto incentiva estudantes indígenas a procurarem formação acadêmica (Alexandre Fonseca)

Antes de completar um ano de idade, um menino indígena da etnia tukano foi benzido pelo kumu (benzedor) e recebeu o nome Yupuri. Isto aconteceu em 1980, na comunidade São Domingos Sávio, à margem do rio Tiquié, na região do Alto Rio Negro, no Amazonas, fronteira com a Colômbia. O garoto também recebeu um nome “branco”: João Rivelino Rezende Barreto. Depois de uma vida de andanças, a família se fixou em Santa Isabel do Rio Negro, onde o jovem descobriu o poder da educação.
Dezoito anos depois, no dia 23 de março de 2012, Rivelino Barreto tornou-se o primeiro indígena a se formar pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Carlos Dias, orientador do mestrado, descreveu o momento como “um rito de passagem” que “iniciou” não apenas Rivelino, mas também o antropólogo britânico Stephen Hugh-Jones (que pela primeira vez integrou uma banca acadêmica no Brasil) e dele próprio, já que o indígena foi o seu primeiro orientando. Confira, a seguir, a entrevista que Rivelino deu a A CRÍTICA.

Conte um pouco sobre sua origem, seu nome, sua comunidade.
Pertenço ao grupo de nome Sararó Yuúpuri Búbera Pôra. Também somos conhecidos como família Barreto. Meu nome ocidental é mais utilizado, mas não reduz meu nome tradicional. O meu nome de benzimento nunca vai deixar de existir. Esses nomes são importantes porque trazem benefício para a alma e para o coração das pessoas.

Onde você nasceu?
No tempo da borracha, nos anos 60, meus pais foram para a Colômbia. No ano em que nasci, voltamos para o Brasil. A gente se identifica como tukano brasileiro, embora isto não impeça que visitemos nossos parente da Colômbia. Eles também nos visitam.
 Em que contexto se deu o deslocamento da sua família para outras áreas?
Morei em São Domingos Sávio até os sete anos de idade. Devido à enfermidade da nossa mãe tivemos que ir para São Gabriel da Cachoeira. Mas nunca perdemos contato com São Domingos. Nessa ida e vinda nossa mãe faleceu. Passamos a ser andarilhos. Trabalhamos no garimpo, na fronteira com a Colômbia, descoberto por meus primos. Depois, fomos morar em Santa Isabel do Rio Negro.

Foi ali que você teve a percepção do que queria?
Eu sempre quis estudar. Foi isso que mais marcou a minha vida. Eu tinha 14 anos quando cheguei em Santa Isabel. Mas foi difícil. Eu levava vida de garimpeiro, de pescador. Fiz muitas coisas. Mas foi ali que começou a transformação. A gente morava numa ilha em frente à cidade. Íamos de canoa para a escola, debaixo de sol e chuva. Meu pai foi trabalhar na vacaria dos padres salesianos e depois fui eu que passei a trabalhar lá.

Como você fazia para trabalhar e estudar ao mesmo tempo?
Foi uma época de muita dificuldade. Eu sempre ia para a escola contando com a sopa que a irmã (freira) ia servir. E também a merenda dos padres. Depois, conhecemos uma família que nos ajudou, a da dona Sandra Gomes Castro. Meu pai retornava muito para a comunidade e ela acolheu eu e meu irmão. Foi nessa época que comecei a trabalhar como garçom em uma banca na praça. Nos primeiros meses morei naquela barraquinha. Trabalhava a troco de cama, roupa e comida e para poder estudar.

Como foi sua aproximação com os padres salesianos?
 Eu tocava violão na igreja. Não é que gostasse muito de rezar, mas eu gostava de violão. Hoje tem a UEA, tem a Ufam... Mas quando eu terminei o terceiro ano ou ia ser gari, ou entrava no Exército ou ia para o seminário. Escolhi o terceiro. Passei seis anos com os salesianos. Vivi esse período de formação toda. Graças a eles consegui fazer uma faculdade, ter formação humana e intelectual.

Como era a relação entre a formação que você recebia com a sua história de vida?
Toda essa formação me deixava inquieto em relação à minha cultura. Eu nunca morei longo tempo na minha comunidade. Viajei bastante, conheci o Brasil. Mas minha família estava em situação difícil. Com o tempo pensei em deixar a vida religiosa.

O que você pesquisou em seu projeto de conclusão de curso em Filosofia?
Fiz uma monografia na graduação pensando no meu grupo indígena. Mas não tive espaço para discutir sobre os conhecimentos tukano. Meu orientador disse que eu falaria sobre o homem na Grécia Antiga, na Idade Moderna, o homem segundo Platão e segundo Kant. E o homem segundo o tukano teve um espaço muito reduzido. Mas isso não me desmotivou.

 Você já sofreu preconceito no meio acadêmico?
Quando você fala em preconceito, sinto isso dentro de mim. Tenho uma boa formação, mas ainda não tive sorte em termos de emprego. Muitas vezes as pessoas impõem uma certa barreira. Já coloquei muitos currículos em escolas particulares, mas ainda não tive sucesso. Por enquanto, presto serviço no curso do Pró-Índio, da UEA. Mas gostaria de trabalhar como professor e pesquisador.

Você pretende voltar para a sua comunidade? Voltar a ter uma relação com ela?
O retorno é muito significativo para nós enquanto homens indígenas, enquanto tukano, enquanto pertencente a uma etnia, a uma cultura diferenciada. Estou com projeto de retorno. Eu e meu irmão queremos reestruturar a caça e o roçado. O retorno está sempre voltado para os valores culturais, os nossos conhecimentos, nossos benzimentos, a forma de a gente se organizar.
Como foi realizar pesquisa em sua própria comunidade?
 Retornei para São Domingos para pesquisa de campo, em junho de 2010. Pesquisar seu próprio grupo foi fácil e ao mesmo tempo difícil. Fácil porque você fala com sua língua, mas a transcrição é mais difícil. É desafiante.
Como pesquisador, como foi trabalhar sem o distanciamento ou estranhamento?
A minha pesquisa tinha a proposta de trazer para o conhecimento acadêmico as noções que os tukano têm sobre eles mesmos. Quando cheguei como pesquisador, eles (os parentes indígenas) me colocaram como diferencial. Eles falavam “olha, nosso sobrinho está chegando aí, ele é estudante de antropologia”. Já nos colocam em nível superior. Mas eu não queria essa forma de tratamento.
Como você se sente estudando seu próprio povo?
O Alto Rio Negro é um palco muito bem estudado. Mas a gente vê que muitos textos são de gringos. É uma antropologia feita da forma deles. No meu caso, é mais concreta, prática, do que são as unidades sociais. Eles (os outros antropólogos) usam termos como “tribo”, “grupos exogâmicos”. Mas eu usei termo “coletivo” no lugar de tribo. Quando se trata de grupo se limita a um determinado local. Pode ser grupo na Colômbia, em São Domingos, em Manaus... Mas todos eles se identificam como pertencente ao Sararó Yuúpuri Búbera Pôra. A ideia de coletivo ultrapassa as fronteiras.
O que você acha de muitos indígenas estarem fazendo faculdade?
É uma grande conquista. Mas eu ficava em dúvida se ao entrar na faculdade iria me formar com as teorias dos brancos. É importante ver os valores das nossas culturas. Me formei pensando nos próprios conhecimentos do meu povo. 

Sobre o que trata sua dissertação?
O tema é “Formação e Transformação dos Coletivos Indígenas no Noroeste Amazônico - do Mito à sociologia das Comunidades”. Faço uma etnologia em cima do meu próprio grupo. Como eles pensam, o que descrevem, como aconteceu a formação. O primeiro capítulo traz uma descrição mais mitológica, com duas noções que considerei como teoria tukano: o Uükûse e o Muropau Uúsetise. A primeira é a arte do diálogo, descreve narrações míticas de formação da terra, da água, dos homens, as unidades sociais e as hierarquias. O segundo é um discurso sociológico. 

Qual a contribuição de seu trabalho?
Produzi uma genealogia, um mapa. Isso traz um diferencial grande. Além de ser um pensamento, está buscando um diálogo com a antropologia. Não podemos isolar nossos conhecimentos, temos que dialogar. A Antropologia da Ufam está possibilitando eu falar de nossos conhecimentos, mas ao mesmo tempo estar ouvindo.

Perfil - João Rivelino Barreto
Nome indígena: Yupuri
Idade: 31 anos
Origem: pertence à etnia tukano e é membro do grupo Sararó Yuúpuri Búbera Pôra, que não tem uma tradução literal para o português, da comunidade São Domingos Sávio, localizada à margem do rio Tiquié, na região do Alto Rio Negro
Formação: Filosofia pela Congregação Católica Salesiana. Mestrado em Antropologia pela Ufam


ELAÍZE FARIAS

Nenhum comentário:

Postar um comentário