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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

SMTU começa a usar biometria facial para coibir fraudes com os cartões de transporte

Fiscalização começa a partir desta terça-feira (24). Caso uma pessoa que não seja o titular do cartão tente usar o benefício, o sistema emitirá sinais sonoros


Câmera localizada no leitor do ônibus fará biometria facial do usuário (Márcio Silva)

 

A partir desta terça-feira (24), a Superintendência Municipal de Transporte Urbano (SMTU) inicia a fiscalização do uso diário do cartão Passa Fácil – gratuito e estudantil – no transporte coletivo urbano de Manaus. A fiscalização será feita por biometria facial no momento em que o passageiro passar a carteirinha no leitor do ônibus.

De acordo com o diretor-presidente da SMTU, Pedro Carvalho, a medida é adotada por causa da necessidade de disciplinar e fiscalizar o uso diário do cartão Passa Fácil. Ele contou que há muitos casos em que os pais utilizam a carteira estudantil do filho, homens utilizando a carteira de mulher e vice-versa, como também situação de familiares estarem utilizando a carteirinha de alguém já falecido.
“Estamos a três anos implantando este projeto. A fiscalização é na biometria facial, e estamos tentando conscientizar a população com o uso dessa tecnologia. O projeto terá outras fases que também serão implantado, mas por enquanto precisamos de início começar a regulamentar a gratuidade e meia passagem no transporte coletivo”, explicou.
A fiscalização será efetuada através da avaliação facial e, sendo detectado o uso por outra pessoa que não seja o titular do cartão, o sistema emitirá sinal sonoro e emitirá mais três vezes a sinalização caso a carteira continue sendo utilizada por outra pessoa a não ser o proprietário.
Depois da terceira vez, o sistema bloqueará o Passa Fácil e o responsável terá que comparecer no Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Amazonas (Sinetram), e assinará um Termo de Responsabilidade de impedir o uso do cartão por terceiros. Caso ocorra persistência, o Passa Fácil será bloqueado durante 6 meses.



Isabelle Valois

‘Há tanta vida lá fora...’: conheça casos de pessoas que decidiram se afastar do Facebook

Estudo recente apontou que obsessão por curtidas e compartilhamentos pode nos causar mal. Pessoas que saíram da rede e uma especialista comentam o tema


"Acordava e ia direto com a mão no smartphone para verificar as notificações e notícias do dia", disse a estudante Karoline Zany (Aguilar Abecassis)


Quando foi a última vez que você olhou seu Facebook na última hora? Talvez nem você mesmo(a) consiga responder essa pergunta. A verdade é que as redes sociais entraram de vez no cotidiano das pessoas nos últimos anos, de maneira que não nos percebemos à sua mercê.
No entanto, é válido perguntar: até que ponto isso nos afeta? Em estudo divulgado este mês, o Instituto de Pesquisa da Felicidade, sediado em Copenhagen, apontou que nossa obsessão em chegar novas curtidas e compartilhamentos pode nos causar mal.
Eles testaram a tese separando um grupo de aproximadamente 1,1 mil pessoas em dois grupos, um dos quais passaria uma semana fora da rede social de Mark Zuckerberg e outro continuaria a usá-la normalmente pelo mesmo período.
Pedidos para avaliar seu grau de satisfação pessoal antes e depois do experimento, os participantes que ficaram fora ranquearam a sua vida melhor dos que os que permaneceram na rede. Ao fim da semana, a média de “índice de satisfação pessoal” do grupo que continuou no Facebook era de 7,75, enquanto o do grupo que saiu era de 8,12.
O presidente do instituto, Meik Wiking, disse a um jornal dinamarquês que acredita que a distorção de realidade provocada pela rede é fator que contribui muito para o resultado, o que encontra ecos em estudiosos aqui no Brasil. 
Aline Restano, psicóloga que integra o Grupo de Estudos Sobre Adições Tecnológicas (Geat), baseado no Rio Grande do Sul, em entrevista ao VIDA&ESTILO comentou que, para certas pessoas na web, “parece mais importante parecer que está feliz do que estar feliz de verdade”. 
Por esse e outros motivos, há pessoas que realmente optaram por se desconectar mais um pouco, como na experiência na Dinamarca, vivendo mais momentos e menos “likes”.
‘Motivo de sofrimento’
A estudante Karoline Zany era uma daquelas pessoas que quase nunca ficava offline. “Acordava e ia direto com a mão no smartphone para verificar as notificações e notícias do dia. No caminho para o trabalho, casa, faculdade, a grande distração era o uso das redes sociais, mas com o tempo aquilo se tornou monótono e percebi a baixa produtividade em outras atividades como estudos, conversas face a face com os amigos, em casa com a família, etc”, falou.
Incomodada, ela acabou saindo das redes. “O Facebook se tornou motivo de sofrimento, é uma ferramenta  que escraviza aqueles que não têm autocontrole. O impacto pelo mal uso é muito grande, destrói relacionamentos e amizades. [Fora], você passa a ter mais tempo para si, o fator ansiogênico de ver as notificações foi totalmente desativado (risos). A sensação é realmente de liberdade”, explicou.
Karoline afirmou que teve quatro contas no Facebook desde 2010, das quais ela só possui e-mail e senha de uma, a qual não usa ativamente desde o ano passado.
“Não tenho vontade de usar, não sinto falta, não é algo que tem importância ou que me faz ficar bem. Às vezes a gente pensa: ‘Poxa, vamos deixar de ver o que as pessoas postam e compartilhar de certos momentos’, mas sinceramente estou melhor sem o uso dessas ferramentas do mal. Sério, são coisas que causam dependência”, reflete.
Mais dedicação
Para o aluno de Engenharia da Computação Avelino Morganti, o intervalo de um ano e meio que ele se deu do Facebook lhe proporcionou vários prêmios acadêmicos e a aprovação em um intercâmbio em Portugal, onde ele ficará até o ano que vem.
Ele disse que reativou a rede duas vezes desde então: uma por pressão de colegas de faculdade para compartilhar informações sobre aulas, que durou até ele usar ferramentas como o Google Drive e o Dropbox para isso, e outra por conta do intercâmbio.
“Eu voltei a ativar o Facebook um pouco antes de vir para Portugal, pela pressão da família e de amigos. Achei também que era a maneira mais fácil de compartilhar fotos e ‘dizer que estou bem’”, comentou o estudante.
Avelino aponta que ferramentas como o feed infinito de notícias tornam a rede aditiva. “O usuário tem a sensação de ‘estou perdendo algo se não rolar o feed até o fim’ e isto faz com que ele sempre tenha ‘vontade de dar uma olhadinha’”, exemplificou.
Ele reflete que, dada a sua área de estudo (computação), é difícil abandonar por completo as redes sociais. “Esta é a razão pela qual eu ainda tenho Facebook. No entanto, com o surgimento de outros serviços, eu tenho ficado vários dias seguidos sem usá-lo”, explicou.
‘Como uma droga’
Segundo Aline Restano, psicóloga integrante de Geat, grupo de estudo da UFRGS sobre o tema, nem sempre o tempo gasto na rede é o que influencia na felicidade do indivíduo.
“O que temos que avaliar é se a rede social gera prejuízo na vida da pessoa, no seu convívio social ou familiar, na sua condição física, no seu desempenho acadêmico... Não é o número de horas que define se uma pessoa está dependente. O que define o uso problemático é o prejuízo”, comentou.
“Assim como uma droga, ela gera um prazer quando você vê curtidas e comentários positivos, então você tende a repetir o comportamento”, explica a psicóloga.
A base desse prazer, segundo Aline, varia de pessoa para pessoa, ainda que a questão da aprovação seja um fator. “[Um artigo apontou] que pessoas que têm muita necessidade de aprovação social tendem a ter um uso mais problemático de redes sociais, porque ela vai ter que conferir muito mais vezes”, comentou, destacando, no entanto, que as pessoas mais ansiosas, deprimidas ou com mais fobias sociais também se encontram particularmente vulneráveis aos encantos da web.
Potencializador
Aline Restano também enfatiza um aspecto das redes sociais que ela vê constantemente ignorado em reportagens que as demonizam: o de potencializador de questões prévias.
“Não é a rede social que gera o problema. [...] É preciso entender o que estava se passando com a pessoa antes, [o] porquê da sua vida real estar tão empobrecida a ponto de uma rede social se tornar tão mais interessante”, destacou a psicóloga.
Ela também aponta o contexto cultural problemático do qual as redes fazem parte: “Vivemos numa cultura em que temos que mostrar tudo o que estamos fazendo. Isso é anterior às redes sociais e é humano, mas agora a gente enxerga mais forte”, disse.
Sobre o estudo feito na Dinamarca, Aline é cautelosa quando o assunto é a “felicidade” dos participantes, mas admite que é natural sentir um alívio quando uma meta é obtida (no caso, ficar fora das redes sociais).
Para quem está incomodado com a influência de redes como o Facebook em sua vida, ela recomenda terapia para se chegar à raiz do problema. Para quem só quiser se afastar delas, Avelino Morganti faz a provocação: “Se eu pudesse dar um recado aos seus leitores, diria para tentarem viver sem Facebook durante um mês. Eu me arriscaria dizer que poucos vão conseguir, pois é tão difícil como largar um vício como álcool ou cigarro”. Está lançado o desafio!

Lucas Jardim


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

MEC abre inscrições para o Fies

Estão abertas as inscrições, pelo sistema informatizado, para novos contratos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) do primeiro semestre de 2015

Fundo permite acesso ao ensino superior (Bruno Kelly/Acritica )



O Ministério da Educação (MEC) abre hoje (23) inscrições, pelo sistema informatizado, para novos contratos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) do primeiro semestre de 2015. As inscrições poderão ser feitas exclusivamente pela internetaté o dia 30 de abril.

A portaria que dispõe sobre o prazo de inscrição está publicada na edição de hoje (23) do Diário Oficial da União. Define também que serão observados os indicadores de qualidade de instituições de ensino superior para a concessão do financiamento.
Passo a passo divulgado pelo MEC informa que para efetuar a inscrição o estudante deverá acessar o sistema informatizado (SisFies) e inserir os dados solicitados.
Após prestar essas informações, receberá mensagem no endereço eletrônico informado para a validação do seu cadastro. A partir daí, o estudante acessará o SisFies e fará sua inscrição informando os dados pessoais, do curso e instituição e as informações sobre o financiamento solicitado.
Após concluir a inscrição, o estudante deverá validar suas informações na Comissão Permanente de Supervisão e Acompanhamento (CPSA), na instituição de ensino, em até 10 dias, contados a partir do dia posterior ao da conclusão da inscrição.
Após a validação das informações o estudante deverá comparecer a um agente financeiro do Fies em até 10 dias, contados a partir do terceiro dia útil imediatamente subsequente à data da validação da inscrição pela CPSA, para formalizar a contratação do financiamento.
No ano passado, o ministério alterou as regras para concessão de novos contratos do Fies. O estudante terá que obter um resultado mínimo de 450 pontos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para conseguir o financiamento.
Disciplinou também o uso simultâneo de recursos Fies e do Programa Universidade para Todos (ProUni). Um estudante só poderá usar os dois programas quando tiver bolsa parcial do ProUni e o complemento do Fies for para o mesmo curso e na mesma instituição de ensino superior.

YARA AQUINO (AGÊNCIA BRASIL)

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Cetam oferta 5.032 vagas para 37 tipos de cursos em Manaus

Cursos de qualificação profissional com carga horária entre 60h a 160h serão realizados em sete Centros de Convivência da Família e do Idoso em Manaus


Aulas iniciam em março e dias da semana variam conforme o curso escolhido (Divulgação/Agecom)



Nos dias 25 e 26 de fevereiro, o Centro de Educação Tecnológica do Amazonas (Cetam) realizará inscrições para 5.032 vagas em 37 diferentes cursos de qualificação profissional que serão ofertados em parceria com a Secretaria de Estado da Assistência Social e Cidadania (Seas), em sete Centros de Convivência da Família e do Idoso em Manaus.

O atendimento para inscrições será realizado de 7h às 17h no próprio Centro de Convivência onde o interessado pretende estudar. As cargas horárias dos cursos variam de 60h a 160h. As aulas iniciam em março e os horários e dias da semana variam de acordo com o curso escolhido.
Cada curso possui um pré-requisito específico e os documentos gerais necessários são cópias (legíveis) da Carteira de Identidade (RG, CTPS ou CNH), CPF, comprovante de residência, comprovante de escolaridade (para alguns cursos) e Certificado de Informática Básica (com mínimo de 40h para interessados ao curso de Informática Avançada).
Nesta primeira etapa do calendário de atividades do Cetam serão ofertados cursos de Assistente Administrativo, Almoxarife, Artesanato em Crochê, Corte e Escova de Cabelos, Colorimetria, Confeitaria, Depilação, Informática Básica e Avançada, Libras, Manicure e Pedicure, Operador de Caixa, Recepcionista, entre outros.
Os centros de convivência são o da Família André Araújo, no bairro da Raiz; o C. C. da Família 31 de Março, no bairro Japiim I; C. C. da Família Magdalena Arce Daou, no bairro Santo Antônio; o da Família Teonizia Lobo, no Amazonino Mendes; C. C. Família Padre Pedro Vignola, na Cidade Nova; o C. C. da Família Miranda Leão, na Alvorada 1; e o C. C. do Idoso, no bairro Aparecida.
Com informações da assessoria de imprensa


domingo, 22 de abril de 2012

Primeiro indígena a se formar pela Ufam incentiva outros a procurar formação acadêmica

‘Eu sempre quis estudar. Isso marcou a minha vida’ , revelou o índio tukano João Rivelino Rezende

Barreto incentiva estudantes indígenas a procurarem formação acadêmica
Barreto incentiva estudantes indígenas a procurarem formação acadêmica (Alexandre Fonseca)

Antes de completar um ano de idade, um menino indígena da etnia tukano foi benzido pelo kumu (benzedor) e recebeu o nome Yupuri. Isto aconteceu em 1980, na comunidade São Domingos Sávio, à margem do rio Tiquié, na região do Alto Rio Negro, no Amazonas, fronteira com a Colômbia. O garoto também recebeu um nome “branco”: João Rivelino Rezende Barreto. Depois de uma vida de andanças, a família se fixou em Santa Isabel do Rio Negro, onde o jovem descobriu o poder da educação.
Dezoito anos depois, no dia 23 de março de 2012, Rivelino Barreto tornou-se o primeiro indígena a se formar pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Carlos Dias, orientador do mestrado, descreveu o momento como “um rito de passagem” que “iniciou” não apenas Rivelino, mas também o antropólogo britânico Stephen Hugh-Jones (que pela primeira vez integrou uma banca acadêmica no Brasil) e dele próprio, já que o indígena foi o seu primeiro orientando. Confira, a seguir, a entrevista que Rivelino deu a A CRÍTICA.

Conte um pouco sobre sua origem, seu nome, sua comunidade.
Pertenço ao grupo de nome Sararó Yuúpuri Búbera Pôra. Também somos conhecidos como família Barreto. Meu nome ocidental é mais utilizado, mas não reduz meu nome tradicional. O meu nome de benzimento nunca vai deixar de existir. Esses nomes são importantes porque trazem benefício para a alma e para o coração das pessoas.

Onde você nasceu?
No tempo da borracha, nos anos 60, meus pais foram para a Colômbia. No ano em que nasci, voltamos para o Brasil. A gente se identifica como tukano brasileiro, embora isto não impeça que visitemos nossos parente da Colômbia. Eles também nos visitam.
 Em que contexto se deu o deslocamento da sua família para outras áreas?
Morei em São Domingos Sávio até os sete anos de idade. Devido à enfermidade da nossa mãe tivemos que ir para São Gabriel da Cachoeira. Mas nunca perdemos contato com São Domingos. Nessa ida e vinda nossa mãe faleceu. Passamos a ser andarilhos. Trabalhamos no garimpo, na fronteira com a Colômbia, descoberto por meus primos. Depois, fomos morar em Santa Isabel do Rio Negro.

Foi ali que você teve a percepção do que queria?
Eu sempre quis estudar. Foi isso que mais marcou a minha vida. Eu tinha 14 anos quando cheguei em Santa Isabel. Mas foi difícil. Eu levava vida de garimpeiro, de pescador. Fiz muitas coisas. Mas foi ali que começou a transformação. A gente morava numa ilha em frente à cidade. Íamos de canoa para a escola, debaixo de sol e chuva. Meu pai foi trabalhar na vacaria dos padres salesianos e depois fui eu que passei a trabalhar lá.

Como você fazia para trabalhar e estudar ao mesmo tempo?
Foi uma época de muita dificuldade. Eu sempre ia para a escola contando com a sopa que a irmã (freira) ia servir. E também a merenda dos padres. Depois, conhecemos uma família que nos ajudou, a da dona Sandra Gomes Castro. Meu pai retornava muito para a comunidade e ela acolheu eu e meu irmão. Foi nessa época que comecei a trabalhar como garçom em uma banca na praça. Nos primeiros meses morei naquela barraquinha. Trabalhava a troco de cama, roupa e comida e para poder estudar.

Como foi sua aproximação com os padres salesianos?
 Eu tocava violão na igreja. Não é que gostasse muito de rezar, mas eu gostava de violão. Hoje tem a UEA, tem a Ufam... Mas quando eu terminei o terceiro ano ou ia ser gari, ou entrava no Exército ou ia para o seminário. Escolhi o terceiro. Passei seis anos com os salesianos. Vivi esse período de formação toda. Graças a eles consegui fazer uma faculdade, ter formação humana e intelectual.

Como era a relação entre a formação que você recebia com a sua história de vida?
Toda essa formação me deixava inquieto em relação à minha cultura. Eu nunca morei longo tempo na minha comunidade. Viajei bastante, conheci o Brasil. Mas minha família estava em situação difícil. Com o tempo pensei em deixar a vida religiosa.

O que você pesquisou em seu projeto de conclusão de curso em Filosofia?
Fiz uma monografia na graduação pensando no meu grupo indígena. Mas não tive espaço para discutir sobre os conhecimentos tukano. Meu orientador disse que eu falaria sobre o homem na Grécia Antiga, na Idade Moderna, o homem segundo Platão e segundo Kant. E o homem segundo o tukano teve um espaço muito reduzido. Mas isso não me desmotivou.

 Você já sofreu preconceito no meio acadêmico?
Quando você fala em preconceito, sinto isso dentro de mim. Tenho uma boa formação, mas ainda não tive sorte em termos de emprego. Muitas vezes as pessoas impõem uma certa barreira. Já coloquei muitos currículos em escolas particulares, mas ainda não tive sucesso. Por enquanto, presto serviço no curso do Pró-Índio, da UEA. Mas gostaria de trabalhar como professor e pesquisador.

Você pretende voltar para a sua comunidade? Voltar a ter uma relação com ela?
O retorno é muito significativo para nós enquanto homens indígenas, enquanto tukano, enquanto pertencente a uma etnia, a uma cultura diferenciada. Estou com projeto de retorno. Eu e meu irmão queremos reestruturar a caça e o roçado. O retorno está sempre voltado para os valores culturais, os nossos conhecimentos, nossos benzimentos, a forma de a gente se organizar.
Como foi realizar pesquisa em sua própria comunidade?
 Retornei para São Domingos para pesquisa de campo, em junho de 2010. Pesquisar seu próprio grupo foi fácil e ao mesmo tempo difícil. Fácil porque você fala com sua língua, mas a transcrição é mais difícil. É desafiante.
Como pesquisador, como foi trabalhar sem o distanciamento ou estranhamento?
A minha pesquisa tinha a proposta de trazer para o conhecimento acadêmico as noções que os tukano têm sobre eles mesmos. Quando cheguei como pesquisador, eles (os parentes indígenas) me colocaram como diferencial. Eles falavam “olha, nosso sobrinho está chegando aí, ele é estudante de antropologia”. Já nos colocam em nível superior. Mas eu não queria essa forma de tratamento.
Como você se sente estudando seu próprio povo?
O Alto Rio Negro é um palco muito bem estudado. Mas a gente vê que muitos textos são de gringos. É uma antropologia feita da forma deles. No meu caso, é mais concreta, prática, do que são as unidades sociais. Eles (os outros antropólogos) usam termos como “tribo”, “grupos exogâmicos”. Mas eu usei termo “coletivo” no lugar de tribo. Quando se trata de grupo se limita a um determinado local. Pode ser grupo na Colômbia, em São Domingos, em Manaus... Mas todos eles se identificam como pertencente ao Sararó Yuúpuri Búbera Pôra. A ideia de coletivo ultrapassa as fronteiras.
O que você acha de muitos indígenas estarem fazendo faculdade?
É uma grande conquista. Mas eu ficava em dúvida se ao entrar na faculdade iria me formar com as teorias dos brancos. É importante ver os valores das nossas culturas. Me formei pensando nos próprios conhecimentos do meu povo. 

Sobre o que trata sua dissertação?
O tema é “Formação e Transformação dos Coletivos Indígenas no Noroeste Amazônico - do Mito à sociologia das Comunidades”. Faço uma etnologia em cima do meu próprio grupo. Como eles pensam, o que descrevem, como aconteceu a formação. O primeiro capítulo traz uma descrição mais mitológica, com duas noções que considerei como teoria tukano: o Uükûse e o Muropau Uúsetise. A primeira é a arte do diálogo, descreve narrações míticas de formação da terra, da água, dos homens, as unidades sociais e as hierarquias. O segundo é um discurso sociológico. 

Qual a contribuição de seu trabalho?
Produzi uma genealogia, um mapa. Isso traz um diferencial grande. Além de ser um pensamento, está buscando um diálogo com a antropologia. Não podemos isolar nossos conhecimentos, temos que dialogar. A Antropologia da Ufam está possibilitando eu falar de nossos conhecimentos, mas ao mesmo tempo estar ouvindo.

Perfil - João Rivelino Barreto
Nome indígena: Yupuri
Idade: 31 anos
Origem: pertence à etnia tukano e é membro do grupo Sararó Yuúpuri Búbera Pôra, que não tem uma tradução literal para o português, da comunidade São Domingos Sávio, localizada à margem do rio Tiquié, na região do Alto Rio Negro
Formação: Filosofia pela Congregação Católica Salesiana. Mestrado em Antropologia pela Ufam


ELAÍZE FARIAS