Em 42 lugares remotos no interior do Amazonas, as eleições são um momento único, onde equipamentos e “gente da cidade” viajavam, em pelo menos três modalidades de transporte, com o objetivo de garantir que os eleitores possam votar
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| No início da década de 2000, a estrada de acesso a comunidades rurais de Manaquiri não era asfaltada e causou obstáculos à Justiça Eleitoral |
O
Amazonas tem pelo menos 42 comunidades isoladas, classificadas como “de
dificílimo acesso”, pelo Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas
(TRE-AM). Nesses locais, a Justiça Eleitoral empenha complexa logística
com transporte por meio de helicópteros, hidroaviões e canoas. Tudo para
que os 12.637 eleitores, entre os quais, indígenas, tenham assegurado, a
cada eleição, o direito ao voto.
Os
locais que demandam maior trabalho e custo têm eleitorado que representa
0,59% dos mais de 2 milhões de eleitores do Amazonas. Num Estado
marcado por histórico vazio institucional e de acesso à cidadania, coube
à Justiça Eleitoral não excluir brasileiros do processo democrático.
As áreas de dificílimo acesso ficam concentradas em 14 municípios.
“Todas
são absurdamente distantes. Nenhuma aqui é fácil. Nenhuma aqui não é
onerosa. Todas essas são relacionadas aos nossos piores casos. São
soluções caras para serem rápidas. Sem isso, o nosso meio de transporte
seria o fluvial e demoraria dias para a apuração como era antes”,
afirma a coordenadora de Logística do TRE-AM, Germaine Martins.
O
Município de São Gabriel da Cachoeira - a 858 quilômetros de Manaus -,
é o que concentra maior número de comunidades de dificílimo acesso por
causa da geografia da região.
Para
esse município, o TRE-AM tem sete planos de distribuição de urnas para
chegar às comunidades mais distantes da sede de São Gabriel da
Cachoeira. Em todos, os deslocamentos são aéreos. Caso contrário, a
apuração de votos poderia demorar dias para ser encerrada. Para cada
seção, o tribunal tem um número de urnas reserva para o caso das mesmas
apresentarem qualquer problema. A medida evita que a votação saia
prejudicada. “Em nível nacional de todos esses pontos os mais
complicados são os de São Gabriel”, disse.
A
localidade identificada como Boca da Entrada, na área mais extrema de
São Gabriel, por exemplo, é indicada com maior grau de dificuldade de
acesso. A única forma de chegar ao local é de helicóptero, isso para
evitar prejuízo ao pleito.
Há locais
que a trajetória para que o voto seja exercido envolve deslocamentos de
canoa ou de carros por mais de 400 quilômetros dentro da floresta por
meio de estrada sem asfalto. em vários trechos os técnicos do TRE-AM
ficam sem comunicação.
“É carro que
atola, pessoas que ficam sem comunicação e agente pensa que aconteceu
alguma coisa até que recuperamos contato”, disse o coordenador de
Infraestrutura do TRE, Rodrigo Carvalho.
Urucarazinho
Nos registros pós-urna eletrônica, a única vez que um local deixou de participar foi em 2005, no referendo. A comunidade de Urucarazinho, em Urucurituba - a 212 quilômetros de Manaus -, foi fortemente atingida pela seca e nem helicópteros conseguiram chegar no local.
Nos registros pós-urna eletrônica, a única vez que um local deixou de participar foi em 2005, no referendo. A comunidade de Urucarazinho, em Urucurituba - a 212 quilômetros de Manaus -, foi fortemente atingida pela seca e nem helicópteros conseguiram chegar no local.
Urnas x adversidades
Hoje, o TRE-AM tem total controle da logística para levar urnas, mantê-las em funcionamento independente de apagões de energia e transmissão de votos para Brasília. Mas iniciar o trabalho foi um passo ousado, pioneiro e quase que de “bandeirantes” nos rincões do Amazonas.
Hoje, o TRE-AM tem total controle da logística para levar urnas, mantê-las em funcionamento independente de apagões de energia e transmissão de votos para Brasília. Mas iniciar o trabalho foi um passo ousado, pioneiro e quase que de “bandeirantes” nos rincões do Amazonas.
O
gerente de Tecnologia de Informação do TRE-AM, Jander Valente, trabalha
há 22 anos no tribunal e é a memória viva deste processo. Ele conta que
apesar do sistema de votação eletrônica ter sido usado pela primeira
vez em 1996, no Amazonas somente em 1998 a votação. E foi nesse
mesmo período que os técnicos do TRE, na busca de tecnologias que
propiciassem uma apuração de votos mais rápida iniciaram a experiência
que, em duas eleições, foi aprovada pelo Tribunal Superior Eleitoral e
utilizada em outros pontos de difícil acesso. Hoje, 1,2 mil localidades
do País transmitem via satélite os votos computados na urna.
Heróis anônimos
Os funcionários do TRE-AM colecionam histórias que vão do pitoresco ao drama no mapeamento, ao longo dos anos, das áreas de dificílimo acesso e na construção da garantia do voto no interior do Amazonas.
Os funcionários do TRE-AM colecionam histórias que vão do pitoresco ao drama no mapeamento, ao longo dos anos, das áreas de dificílimo acesso e na construção da garantia do voto no interior do Amazonas.
A
pior de todas foi registrada na primeira vez que o tribunal implementou
a transmissão de voto via satélite em todo Estado, em 2002. O
monomotor PTE-BK que levava dez urnas para serem instaladas nas
comunidades de Pari Cachoeira, Tanuretê e Paracuá, no Município de São
Gabriel da Cachoeira caiu.
No
acidente, três universitários Fagner Costa, José Gorgonha e Túlio
Sakamoto morreram. Eles seriam os responsáveis pela transmissão dos
dados. Em meio a dor e a tristeza, “a eleição ocorreu, tivemos que repor
aquelas urnas”, recordou a gerente de Logística do TRE-AM, Germaine
Martins.

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