Alunos
da comunidade de São Francisco do Caramuri, na tríplice fronteira
entre Manaus, Itacoatiara e Rio Preto da Eva, estudam por esforço
próprio, sem qualquer tipo de incentivo
| Na sala de aula, dividida entre alunos do 1º e 5º ano, dois ventiladores amenizam o calor; ao fundo, a biblioteca |
“Não
acho que é pedir muito uma escola mais digna ao meu filho. É direito de
todos ter acesso a uma educação adequada”. O desabafo de Ariana Martins
de Lima, 27, não é isolado. Mais dezenas de pais e mães da comunidade
de São Francisco do Caramuri, localizada entre os municípios de Manaus e
Rio Preto da Eva, lamentam o esquecimento do poder público. Há mais de
dois anos a localidade, que pertence à zona rural de Manaus, não vê
investimentos na área da educação e da saúde.
É
num casebre de madeira, já comprometida pelo tempo sem manutenção, num
espaço apertado, com pouca ventilação, carteiras danificadas e sem
banheiro, que 25 alunos tentam se alfabetizar na comunidade. O local só
possui energia elétrica porque há cerca de três semanas a comunidade foi
contemplada pelo programa do Governo Federal “Luz Para Todos”. A
comunidade, inclusive, chegou a doar um terreno para a construção de uma
nova unidade de ensino.
Na Escola Municipal Luiz Alberto Castelo, crianças com idades entre 6 e 12 anos dividem a atenção da mesma professora.
A
falta de professores e a infraestrutura precária permite que a escola
funcione somente no período da manhã. Ao mesmo tempo, é preciso repassar
conteúdos do 1º ao 5º ano. Os livros ficam amontoados em duas estantes
que improvisam uma biblioteca. A professora, que prefere não ter o nome
divulgado, também acaba fazendo o trabalho administrativo. Apenas uma
parede de madeira separa a sala de aula da cozinha onde são feitas as
refeições dos alunos. “Isso atrapalha na hora de aprender”, desabafa a
pequena Franciele Nascimento, 7.
O
desejo de Pedro Henrique da Silva, 11, é poder brincar numa quadra de
esportes durante a aula de educação física, que não tem na grade
curricular desses alunos. Apenas dois playgrounds, entregues
recentemente, fazem parte do momento de recreação do alunos. Mas, se
pudesse ter mais um pedido atendido, Pedro Henrique também gostaria que a
escola tivesse ar-condicionado.
Apenas
dois ventiladores aliviam o calor que os alunos enfrentam na sala de
aula. Os moradores se preocupam com o pouco tempo que a única escola da
comunidade pode resistir. São Francisco do Caramuri está situada à
margem direita do baixo Rio Preto da Eva. No período da cheia, a escola
quase foi alagada, mesmo localizada na beira de um barranco. “Desde que
foi construída em 2003, a escola só recebeu manutenção uma vez, em
meados de 2008. Mas só pintaram e trocaram algumas tábuas”, relatou o
agricultor Pedro Leandro da Silva, 42, que tem dois filhos que estudando
no local.
Desde
janeiro a lancha escolar, cedida pelo Ministério da Educação (MEC) em
junho do ano passado, e que deveria receber assistência da prefeitura,
está parada, devido a problemas técnicos. “Não mandam ninguém consertar.
O transporte das crianças está sendo feito nas ‘rabetas’ dos
moradores”, contou a moradora Sandra da Silva de Lima, 32.
Pedido desde 2010
| Escola Municipal Luiz Alberto Castelo foi contruída em um barranco e quase ficou alagada com a cheia deste ano. (Foto: Odair Leal). |
O
único banheiro da Escola Municipal Luiz Alberto Castelo fica quase
cinco metros distante da sala de aula, na área externa. O pior problema,
porém, é a falta de um sistema de tratamento de esgoto. “Os alunos de
Caramuri sofrem um descaso. Quando chove, a situação fica bem pior”,
relatou o vice-presidente da associação dos moradores, Edimar Messias
Barbosa de Lima, 38.
Desde
março de 2010, a comunidade reivindica a construção de nova escola. Um
ofício encaminhado para a Secretaria Municipal de Educação (Semed),
datado em 30 de março de 2010, junto a um abaixo-assinado com mais de 90
assinaturas, pedia um novo prédio escolar. Também foram enviadas
diversas fotos para mostrar a situação precária do local. Na época,
moradores precisavam buscar a merenda dos alunos de Caramuri na Vila do
Engenho, no município de Itacoatiara, distante a mais de uma hora da
comunidade. Sem resposta, a comunidade enviou outro ofício à Semed,
datado em 31 de agosto de 2011, pedindo novamente à Prefeitura de Manaus
a construção de uma escola com mais salas, uma biblioteca, laboratório
de informática, refeitório, banheiros e poço artesiano.
Promessa
Num
ofício enviado pelo secretário municipal de Educação Mauro Lippi, ao
secretário municipal de Infraestrutura Américo Gorayeb, datado em 17 de
fevereiro deste ano, foi informada uma relação de escolas municipais que
ainda não tinham sido reformadas, bem como a relação das escolas que
deveriam ser construídas em substituição às escolas próprias. Na relação
constava a Escola Municipal Luiz Alberto Castelo entre as unidades que
deveriam ser substituídas por novas. No documento, a nova escola teria
seis salas de aula, diretoria, secretaria, dois alojamentos para
professores, um depósito para merenda, um depósito material de limpeza,
um depósito para motor de luz, um depósito para combustível e banheiros
para adultos e crianças.
Uma
cópia do documento foi entregue à comunidade que reclama que as
promessas não saíram do papel. “Eles sempre falam que vão construir, mas
não vemos nada ser feito”, disse o vice-presidente da associação dos
moradores, Edimar Messias Barbosa de Lima, 38.
Trâmite
A
Secretaria Municipal de Educação (Semed) informou, na sexta-feira, que
“já realizou a licitação para possibilitar as obras de reparo e
ampliação na referida escola” e que “no momento, está sendo feito
trâmite administrativo para a assinatura do contrato e, após este
procedimento, as obras na escola serão iniciadas”.
Na caixa
A
Escola Municipal Luiz Alberto Castelo chegou a receber sete
computadores para sala de informática que deveria existir. Entretanto,
há mais de seis meses, eles permanecem dentro das caixas, guardados em
um pequeno depósito. “Não tem condições de instalá-los. Eles deveriam
servir como mais uma ferramenta de aprendizado para as crianças. Talvez
nem funcionem mais porque não estão sendo usados”, lamentou Edimar
Messias Barbosa de Lima, 38, vice-presidente da associação dos
moradores.
Localização
A
comunidade de São Francisco do Caramuri foi fundada em 1995 com a
chegada de novas famílias na localidade. Atualmente, 35 famílias moram
no local, o que soma aproximadamente 170 pessoas. A comunidade está
localizada na altura do km 133 da rodovia AM-010 ( entre Manaus e
Itacoatiara).
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