Na Amazônia, bem razão tinha Leandro Tocantins ao lembrar-nos, no clássico da sociologia, que o “Rio comanda a vida”
| Assim como acontece hoje, famílias inteiras iam à beira-rio para observar os estragos causados pela enchente de 1953 |
Andava
certo o festejado escritor Leandro Tocantins ao afirmar com
conhecimento de causa que na Amazônia “o rio comanda a vida”. São as
águas puras, negras ou barrentas, que beijam os beiradões perdidos na
imensidão do verde da mesma forma que se abrem diante das cidades,
carregam as alegrias e as dores de um povo bem brasileiro que cuida do
maior patrimônio do planeta.
Água
doce e boa para beber, que representa vida e que corre para os mares.
Para o Mar Dulce como foi batizado o rio Amazonas, e para o oceano
verdadeiro que arrasta nossas águas para bem longe. As águas de maio de
1953 marcaram a vida de muitos amazonenses e a história de Manaus. Não
foram as de março, de que fala o poeta nacional, as águas emblemáticas
para nossa terra.
Todos os anos esse
mundo de água aumenta causando temor e apreensão, mas depois retorna ao
seu leito normal, com paciência e generosidade, para dar de comer e de
beber aos filhos do homem que viu nascer. De tempos em tempos arrebentam
seus caminhos, sobem e descem de forma vertiginosa e assustadora, quase
em explosão, e chegam a arrancar suas margens, tomar as cidades,
transformar a paisagem, assustar o povo, quem sabe só para dizer que a
harmonia e o equilíbrio precisam ser respeitados, que os peixes não vão
faltar, que a vida vai continuar.
Foi
por muitas vezes. Tem sido sempre assim. Uns anos mais do que outros,
mas a cheia e a seca fazem parte da realidade de todos os amazonenses.
Em 1909 e 1922 a subida das águas foi assustadora, e acima de 29 metros.
Ainda maior foi a cheia de 1953, que em junho alcançou os 29.69
metros,chegando em 2009 ao limite de 29,77 metros, e essa de agora, que é
maior, vai provocando muito sofrimento.
O
simbolismo da cheia dos nossos rios ficou sempre por conta de 1953,
aquela que marcou uma geração e empobreceu ainda mais o homem
ribeirinho.
‘Havia de tudo um pouco...’
Era uma “tremenda e alarmante alagação... centenas ou milhares de humildes barracas já foram tragadas e destruídas pela impetuosidade das águas, deixando um sem número de pessoas ao desabrigo, sem lar, sem alimentação, sem nada, enfim ”, ressaltavam os jornais de forma emocionada.
Era uma “tremenda e alarmante alagação... centenas ou milhares de humildes barracas já foram tragadas e destruídas pela impetuosidade das águas, deixando um sem número de pessoas ao desabrigo, sem lar, sem alimentação, sem nada, enfim ”, ressaltavam os jornais de forma emocionada.
Na Câmara Federal o
deputado Paulo Pinto Nery apresentava projeto de lei para liberação de
recursos extras do orçamento da União para o enfrentamento do problema.
Pereira da Silva atacava as lideranças políticas ainda inertes,
alertando para o caos que se avizinhava.
O
Fomento Agrícola Federal liderado por Waldemar Cardoso e Geminiano
Soriano da Silva procurava atender aos necessitados e oferecia panelas,
mesas, cadeiras, farinha, arroz e tudo o mais que fosse necessário,
trabalhando na linha de frente. O navio “arranca toco” era requisitado
para atuar nos altos rios, serrando toras que desciam pelas ribanceiras e
doando madeira aos pobres para a construção de marombas. Deputados
federais visitavam as áreas alagadas.
A
Associação Comercial se mobilizava. Havia de tudo um pouco: Trabalho
sério; oportunismo político; aproveitamento econômico da miséria;
dúvidas e desconfianças. O que não faltava era gente fugindo da cheia,
sofrendo, gemendo de dor, ficando com um só fio de esperança para animar
a vida, esperança que só chegaria com a vazante dos rios.
Mas
tudo que fosse feito era pouco. Havia muita promessa. Os dramas humanos
se repetiam: um pobre homem ribeirinho foi arrastado por uma cobra no
meio das águas turvas do rio; outro tentou por fim a própria vida, por
desespero diante da grave situação. Foram muitas as cenas comoventes e
dolorosas que a comissão da enchente presenciou. Às vezes a água e o
fogo dominavam o cenário em conjunto, de uma só vez, como em certa
plantação no Paraná da Eva.
Treze municípios foram devastados
A enchente de 1953 foi emblemática. A maior dos cinquenta anos anteriores e devastou 13 municípios amazonenses. Pelos dados oficiais 90 por cento da pecuária e da lavoura foram prejudicados inteiramente, porque de várzea. Os municípios de Coari, Tefé, Codajás, Manacapuru, Manaus, Itacoatiara, Itapiranga, Urucurituba, Parintins, Maués, Barreirinha e Borba, padeceram muito mais que outros.
A enchente de 1953 foi emblemática. A maior dos cinquenta anos anteriores e devastou 13 municípios amazonenses. Pelos dados oficiais 90 por cento da pecuária e da lavoura foram prejudicados inteiramente, porque de várzea. Os municípios de Coari, Tefé, Codajás, Manacapuru, Manaus, Itacoatiara, Itapiranga, Urucurituba, Parintins, Maués, Barreirinha e Borba, padeceram muito mais que outros.
Mais
de 62 mil pessoas foram penalizadas pela cheia. Cerca de 80 mil bovinos
sofreram gravemente ou foram perdidos. Próximo de 80 por cento da
população avícola foi destruída. A cultura da juta tardia desapareceu,
da mesma forma que o arroz da várzea, a mandioca, os bananais, o milho e
o feijão. Faltou comida. Tudo era muito mais difícil.
As
lanchas que estavam a serviço daquela luta não eram rápidas, e só
podiam ser auxiliadas por canoas e motores de popa, em verdadeiro
esforço de guerra. A lista de remédios usados foi grande,servindo a
seres humanos ou animais. Foram quase 500 mil quilômetros quadrados de
área alagada somente no Estado do Amazonas.
O
trabalho era dobrado. Era preciso enfrentar os problemas causados pela
cheia e, ao mesmo tempo, planejar e trabalhar nos preparativos para a
vazante.
A paisagem de Manaus mudou
completamente. A população ficou assustada. As águas do rio Negro
invadiram ruas e praças recortando a paisagem urbana com outro desenho,
sempre relembrado e muito parecido com o de agora, principalmente nas
imediações do porto flutuante (que agora não flutua mais), e do mercado
municipal.
Pontes e passarelas
provisórias foram postas sobre as ruas. Os trilhos dos bondes foram
recobertos pela água. As catraias trabalharam sem cessar nos Educandos,
em São Raimundo e na Aparecida. Casas desabaram em São Raimundo. Foram
criadas várias hospedarias como a da Sete de Setembro, a Duque de Caxias
e a Colônia Agrícola.
A praça
Oswaldo Cruz foi inundada. Os armazéns do porto e a antiga Drogaria
Fink foram lavados pelo rio. Os funcionários da Alfandega caminhavam
sobre ripas de madeira para o trabalho. Os navios atracados no porto
ganhavam ainda maior imponência, sendo vistos a larga distância em toda a
sua estrutura. Manaus era quase uma Veneza, cercada de água em seus
pontos e prédios principais, nas imediações do rio Negro. Botes a remo
quase substituíram os ônibus como se fossem as gôndolas românticas
venezianas.
É chegada a hora e entender os sinais
Não teria chegado o tempo de compreendermos que a água que carrega a esperança para o homem amazônico no lugar mais distante desse mundão de florestas é sempre a mesma que anuncia, de vez em quando, que é preciso cuidado com a própria vida e a natureza exuberante e bela. Não seria hora de conter a ganância e de cuidar melhor do planeta, de nós mesmos e de nossos filhos? Ou nada temos a ver com isso?
Não teria chegado o tempo de compreendermos que a água que carrega a esperança para o homem amazônico no lugar mais distante desse mundão de florestas é sempre a mesma que anuncia, de vez em quando, que é preciso cuidado com a própria vida e a natureza exuberante e bela. Não seria hora de conter a ganância e de cuidar melhor do planeta, de nós mesmos e de nossos filhos? Ou nada temos a ver com isso?
Se
não for assim, vamos repetir 1953 quando Ministérios da República e
órgãos do governo do Estado se reuniram para enfrentar a situação,
agravada pelas condições de comunicação e transporte da época, que eram
muito precárias.
Os municípios de Itacoatiara, Benjamin Constant e Manacapuru desde o prenúncio da cheia, começaram a tomar medidas de defesa.
Ajuda oficial
Getulio Vargas, o presidente, Álvaro Maia, o governador, lideraram as providências para o resgate dos alagados, o apoio financeiro, o financiamento visando àrecuperação das plantações. Mesmo assim o dia 1º de Maio foi de festa e a Casa do Trabalhador criada por meu pai - Lourenço da Silva Braga - e um grupo de amigos, tratou de organizar uma vasta programação artística e social.
Getulio Vargas, o presidente, Álvaro Maia, o governador, lideraram as providências para o resgate dos alagados, o apoio financeiro, o financiamento visando àrecuperação das plantações. Mesmo assim o dia 1º de Maio foi de festa e a Casa do Trabalhador criada por meu pai - Lourenço da Silva Braga - e um grupo de amigos, tratou de organizar uma vasta programação artística e social.
Terror da malária
No setor de saúde o maior pavor era da malária. A vacinação contra o tifo e a varíola era realizada a todo vapor. Os médicos Ney Lacerda, Lupi Martins e Stanislau Affonso davam o sangue pelo povo.
No setor de saúde o maior pavor era da malária. A vacinação contra o tifo e a varíola era realizada a todo vapor. Os médicos Ney Lacerda, Lupi Martins e Stanislau Affonso davam o sangue pelo povo.
Jornalistas no front
Os jornalistas se organizaram em comissões na Associação Amazonense de Imprensa e foram para a rua em campanhade apoio aos “alagados”, com vários estudantes que assumiram a linha de frente: Francisco Queiroz, Alfredo Aguiar, Fred Benzecry, Reynier Omena, Francisco Batista, Milton Cordeiro, Doacir Fernandes.
Os jornalistas se organizaram em comissões na Associação Amazonense de Imprensa e foram para a rua em campanhade apoio aos “alagados”, com vários estudantes que assumiram a linha de frente: Francisco Queiroz, Alfredo Aguiar, Fred Benzecry, Reynier Omena, Francisco Batista, Milton Cordeiro, Doacir Fernandes.
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