Município
do Amazonas mais impactado pela enchente de 2012 da bacia amazônica,
Anamã é reflexo da desolação. Todas as ruas estão inundadas, sem
exceção. O que se vê são famílias presas em suas residências (muitas
delas com novos assoalhos erguidos, pois as casas foram alagadas),
muitas casas abandonadas, animais perdidos e muitos serviços básicos
paralisados.
Para se deslocar, apenas
em canoas. Às 19h, não se vê mais viv’alma nas ruas alagadas. As únicas
que se divertem são as crianças, que aproveitam para pular n´água,
brincar até tarde e contribuir para o aumento de casos de virose,
diarreia e vômito.
As aulas das 33
escolas das redes municipal e estadual (zonas rural e urbana) foram
suspensas. Elas retornam quando as águas baixarem, o que pode ocorrer
somente no meio do ano. Um cronograma letivo já vem sendo elaborado.
Apenas
o hospital municipal, um dos poucos imóveis ainda não atingidos pela
água, continua funcionando. A previsão, contudo, é que em menos de 15
dias o prédio seja desativado, já que o nível do rio continua subindo. A
prefeitura aguarda para esta semana ainda a chegada de uma balsa
hospitalar enviada pela Secretaria Estadual de Saúde (Susam), para onde
os atendimentos serão transferidos.
Várzea
Localizado
na confluência dos rios Solimões e Purus, em uma área de várzea, Anamã
tem como característica a sua topografia alagadiça. É o município que
mais sofre com as cheias de grande magnitude no Estado do Amazonas. Em
2009, ano da maior cheia em 100 anos, ficou debaixo d´água, isolado e,
assim com em 2012, teve toda sua economia prejudicada.
Relatos
de agricultores ouvidos pela reportagem – confirmados pelos gestores
públicos do município – apontam a perda de toda a produção agrícola.
Plantações de mandioca, melancia, macaxeira, banana foi destruída pela
chegada “inesperada” (segundo os moradores). Muitos produtores de juta e
malva também perderam sua produção. Também há relatos de que os animais
(sobretudo pequenos rebanhos) estão morrendo porque as marombas onde
ficam durante este período não estão suportando.
Na
zona rural, a cheia atingiu 28 comunidades. Mais de 100 casas estão
inundadas. As famílias, aguardando auxilio. Na zona urbana, 100% das
residências estão atingidas. Um barco com capacidade para receber 50
famílias já está alojando oito. Dois ginásios cobertos estão preparados
para abrigar outras famílias.
Segundo
o coordenador geral da comissão integrada de assistência à enchente de
2012, criada em março, José Luiz Batista da Costa, até o momento a
prefeitura já distribuiu 500 dúzias de tábuas para aproximadamente 250
famílias construírem seus assoalhos.
Uma
das maiores queixas das famílias ouvidas pela reportagem é o isolamento
e falta de transporte para o deslocamento – na maioria dos casos,
canoas que podem transitar nas ruas. Segundo Costa, aproximadamente mil
famílias da sede do município necessitam de canoa própria, mas a
prefeitura pode disponibilizar apenas 60.
A distribuição deverá ocorrer nos próximos dias por meio de sorteio.
Ajuda
A
principal expectativa da prefeitura é a liberação prometida pelo
governo do Estado do cartão SOS Enchente, cujo valor é estimado em R$
400. O levantamento parcial indica que 4 mil famílias precisarão ser
atendidas com este cartão. A lista dos necessitados ainda será repassada
ao governo, mas a prefeitura já aguarda a confirmação dos recursos,
segundo Laércio de Souza Bitencourt, vice-presidente da defesa civil do
município.
“O tamanho dessa cheia de
2012 que estamos vivendo em abril veio somente em maio em 2009. A gente
não estava esperando tão cedo. Soubemos até que ela pode ultrapassar a
daquele ano”, disse Laércio.
Presos
A
enchente em Anamã provoca cenas inusitadas. Uma delas foi identificada
na delegacia do município, onde 13 presos dividem duas celas. A
delegacia, que é de alvenaria, recebeu três andares de novos assoalhos
de madeira para que os detentos não sejam afetados. O município não tem
como fazer a transferência dos presos.
Nesta
quarta-feira, a reportagem presenciou dois presos já julgados tomando
conta da delegacia enquanto os policiais faziam a ronda pelas ruas (de
barco) pelas ruas e entorno do município. Um deles, Antônio Caetano de
Souza Filho, 57, disse que a vigilância é feita de forma alternada. A
reportagem não teve acesso às celas com outros presos porque elas
estavam trancadas. Ele afirmou que não tinha a pretensão de fugir porque
não tem para onde ir e sua família mora em Anamã.
Mudança
A
cheia de grande magnitude como promete ser a de 2012 causou surpresa
até mesmo em que já está acostumado com o ciclo hidrológico do Amazonas.
O agricultor Ovídio Cordeiro Souza, 79, falou que não esperava uma
segunda grande cheia em apenas três anos.
“Estamos
atravessando uma época diferente. Tudo está mudado. Aí para fora as
coisas estão mudando. Ou o sol está muito baixo ou a terra está muito
alta. Eu nunca tinha atravessado uma época como essa”, comentou.
Adaptação
Elevado
à categoria de município há 30 anos, Anamã é fruto de famílias que
migraram de diferentes áreas do Estado do Amazonas. Muitas pessoas
entrevistadas se disseram provenientes das calhas do Juruá ou do Purus.
Curiosamente, sua localidade não foi uma das melhores escolhas, embora o
motivo não se sabe ao certo.
O
superintendente do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), Marco Antônio de
Oliveira, conta que Anamã foi fundada nesta região porque deveria ou
deve haver alguma vantagem. Seja por causa de algum recurso natural ou
pela localização estratégica.
Diante
da perspectiva de novos eventos climáticos extremos na região, ele
recomenda que o município e sua população se adaptem. Para ele, a cidade
deveria dispor de uma infra-estrutura urbana adaptada às condições de
cheias e vazantes, como a instalação de poços tubulares que não sejam
submersos no período da enchente, nem sequem ou tenha água fora dos
padrões de potabilidade.
“Os
equipamentos públicos como escolas, postos de saúde, entre outros,
também devem ser construídos em palafitas que não alaguem nas cheias.
Moradias que flutuem mas permaneçam ancoradas no mesmo local também
podem ser alternativas. Penso que uma mudança de sede só mesmo em casos
sem solução”, comentou.
Localidade
A
transferência da sede para outra localidade já vem sendo sinalizada
pelo prefeito Gecimar Pinheiro. Ele conta que, em 2009, quando era
vereador (ele assumiu o cargo recentemente, após o prefeito anterior ser
cassado), sugeriu essa possibilidade, aparentemente impraticável, em
uma audiência pública.
Pinheiro
sugere a expansão e a transferência paulatina para uma área localizada a
três quilômetros da atua sede do município. “Fica do outro lado onde
tem um paraná, que facilitaria o acesso. Poderíamos reconstruir a parte
administrativa e depois a transferência ia acontecendo. Se continuar
onde está a cidade vai continuar recebendo esse impacto sempre”,
comentou.
Picadas
Com
a subida do rio, o número de pessoas picadas por cobra e arraia
atendidas no hospital aumentou, segundo a diretora da unidade de saúde,
Silvane de Aguiar. No entanto, os casos mais comuns ainda não são virose
e diarreia.
ELAÍZE FARIAS