Estudo recente apontou que obsessão por curtidas e compartilhamentos pode nos causar mal. Pessoas que saíram da rede e uma especialista comentam o tema
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"Acordava e ia direto com a mão no smartphone para verificar as notificações e notícias do dia", disse a estudante Karoline Zany |
Quando foi a última vez
que você olhou seu Facebook na última hora? Talvez nem você mesmo(a) consiga
responder essa pergunta. A verdade é que as redes sociais entraram de vez no
cotidiano das pessoas nos últimos anos, de maneira que não nos percebemos à sua
mercê.
No entanto, é válido perguntar: até que ponto isso nos
afeta? Em estudo divulgado este mês, o Instituto de Pesquisa da Felicidade,
sediado em Copenhagen, apontou que nossa obsessão em chegar novas curtidas e
compartilhamentos pode nos causar mal.
Eles testaram a tese separando um grupo de aproximadamente
1,1 mil pessoas em dois grupos, um dos quais passaria uma semana fora da rede
social de Mark Zuckerberg e outro continuaria a usá-la normalmente pelo mesmo
período.
Pedidos para avaliar seu grau de satisfação pessoal antes e
depois do experimento, os participantes que ficaram fora ranquearam a sua vida
melhor dos que os que permaneceram na rede. Ao fim da semana, a média de
“índice de satisfação pessoal” do grupo que continuou no Facebook era de 7,75,
enquanto o do grupo que saiu era de 8,12.
O presidente do instituto, Meik Wiking, disse a um jornal
dinamarquês que acredita que a distorção de realidade provocada pela rede é
fator que contribui muito para o resultado, o que encontra ecos em estudiosos
aqui no Brasil.
Aline Restano, psicóloga que integra o Grupo de Estudos
Sobre Adições Tecnológicas (Geat), baseado no Rio Grande do Sul, em entrevista
ao VIDA&ESTILO comentou que, para certas pessoas na web, “parece mais
importante parecer que está feliz do que estar feliz de verdade”.
Por esse e outros motivos, há pessoas que realmente optaram
por se desconectar mais um pouco, como na experiência na Dinamarca, vivendo
mais momentos e menos “likes”.
‘Motivo
de sofrimento’
A estudante Karoline Zany era uma daquelas pessoas que quase
nunca ficava offline. “Acordava e ia direto com a mão no smartphone para
verificar as notificações e notícias do dia. No caminho para o trabalho, casa,
faculdade, a grande distração era o uso das redes sociais, mas com o tempo aquilo
se tornou monótono e percebi a baixa produtividade em outras atividades como
estudos, conversas face a face com os amigos, em casa com a família, etc”,
falou.
Incomodada, ela acabou saindo das redes. “O Facebook se
tornou motivo de sofrimento, é uma ferramenta que escraviza aqueles que
não têm autocontrole. O impacto pelo mal uso é muito grande, destrói
relacionamentos e amizades. [Fora], você passa a ter mais tempo para si, o
fator ansiogênico de ver as notificações foi totalmente desativado (risos). A
sensação é realmente de liberdade”, explicou.
Karoline afirmou que teve quatro contas no Facebook desde
2010, das quais ela só possui e-mail e senha de uma, a qual não usa ativamente
desde o ano passado.
“Não tenho vontade de usar, não sinto falta, não é algo que
tem importância ou que me faz ficar bem. Às vezes a gente pensa: ‘Poxa,
vamos deixar de ver o que as pessoas postam e compartilhar de certos momentos’,
mas sinceramente estou melhor sem o uso dessas ferramentas do mal. Sério, são
coisas que causam dependência”, reflete.
Mais
dedicação
Para o aluno de Engenharia da Computação Avelino Morganti, o
intervalo de um ano e meio que ele se deu do Facebook lhe proporcionou vários
prêmios acadêmicos e a aprovação em um intercâmbio em Portugal, onde ele ficará
até o ano que vem.
Ele disse que reativou a rede duas vezes desde então: uma
por pressão de colegas de faculdade para compartilhar informações sobre aulas,
que durou até ele usar ferramentas como o Google Drive e o Dropbox para isso, e
outra por conta do intercâmbio.
“Eu voltei a ativar o Facebook um pouco antes de vir para
Portugal, pela pressão da família e de amigos. Achei também que era a maneira
mais fácil de compartilhar fotos e ‘dizer que estou bem’”, comentou o
estudante.
Avelino aponta que ferramentas como o feed infinito de
notícias tornam a rede aditiva. “O usuário tem a sensação de ‘estou perdendo
algo se não rolar o feed até o fim’ e isto faz com que ele sempre tenha
‘vontade de dar uma olhadinha’”, exemplificou.
Ele reflete que, dada a sua área de estudo (computação), é
difícil abandonar por completo as redes sociais. “Esta é a razão pela qual eu
ainda tenho Facebook. No entanto, com o surgimento de outros serviços, eu tenho
ficado vários dias seguidos sem usá-lo”, explicou.
‘Como uma
droga’
Segundo Aline Restano, psicóloga integrante de Geat, grupo
de estudo da UFRGS sobre o tema, nem sempre o tempo gasto na rede é o que
influencia na felicidade do indivíduo.
“O que temos que avaliar é se a rede social gera prejuízo na
vida da pessoa, no seu convívio social ou familiar, na sua condição física, no
seu desempenho acadêmico... Não é o número de horas que define se uma pessoa
está dependente. O que define o uso problemático é o prejuízo”, comentou.
“Assim como uma droga, ela gera um prazer quando você vê
curtidas e comentários positivos, então você tende a repetir o comportamento”,
explica a psicóloga.
A base desse prazer, segundo Aline, varia de pessoa para
pessoa, ainda que a questão da aprovação seja um fator. “[Um artigo apontou]
que pessoas que têm muita necessidade de aprovação social tendem a ter um uso
mais problemático de redes sociais, porque ela vai ter que conferir muito mais
vezes”, comentou, destacando, no entanto, que as pessoas mais ansiosas,
deprimidas ou com mais fobias sociais também se encontram particularmente
vulneráveis aos encantos da web.
Potencializador
Aline Restano também enfatiza um aspecto das redes
sociais que ela vê constantemente ignorado em reportagens que as demonizam: o
de potencializador de questões prévias.
“Não é a rede social que gera o problema. [...] É
preciso entender o que estava se passando com a pessoa antes, [o] porquê da sua
vida real estar tão empobrecida a ponto de uma rede social se tornar tão mais
interessante”, destacou a psicóloga.
Ela também aponta o contexto cultural problemático do qual
as redes fazem parte: “Vivemos numa cultura em que temos que mostrar
tudo o que estamos fazendo. Isso é anterior às redes sociais e é
humano, mas agora a gente enxerga mais forte”, disse.
Sobre o estudo feito na Dinamarca, Aline é cautelosa quando
o assunto é a “felicidade” dos participantes, mas admite que é natural sentir
um alívio quando uma meta é obtida (no caso, ficar fora das redes sociais).
Para quem está incomodado com a influência de redes
como o Facebook em sua vida, ela recomenda terapia para se chegar à raiz
do problema. Para quem só quiser se afastar delas, Avelino Morganti faz a
provocação: “Se eu pudesse dar um recado aos seus leitores, diria para
tentarem viver sem Facebook durante um mês. Eu me arriscaria dizer que
poucos vão conseguir, pois é tão difícil como largar um vício como álcool ou
cigarro”. Está lançado o desafio!
Lucas Jardim

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