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sábado, 2 de março de 2013

Nível de mercúrio nos rios da Amazônia é alvo de pesquisa

Trabalho será realizado entre o Inpa e outras instituições por meio de uma cooperação científica, nas bacias dos rios Negro e Madeira, Tocantins, Branco e Tapajós

Ribeirinho mosra um peixe capturado no rio Madeira, onde serão realizados os trabalhos
Ribeirinho mosra um peixe capturado no rio Madeira, onde serão realizados os trabalhos (Arquivo A Crítica)
O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) discute cooperação para participar de um projeto sobre o desenvolvimento de biomarcadores de toxidade do mercúrio em cinco rios da bacia Amazônica. Os detalhes da cooperação foram debatidos em reunião que aconteceu no fim da tarde dessa quarta-feira (20), na sede da entidade, localizada na Zona Centro-Sul de Manaus.

O projeto, que conta com a participação das Universidades de Brasília (UnB), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC/Goiás), foi financiado pela Energia Sustentável do Brasil por meio do Programa de Pesquisa e Desenvolvimento da Agência Nacional de Energia Elétrica (P&D/ANEEL).

De acordo com Ézio Sargentini, pesquisador representante do Inpa na cooperação, a área de atuação será nas bacias dos rios Negro e Madeira, Tocantins, Branco e Tapajós. Segundo o pesquisador, a cooperação científica já foi firmada.

“Todos nós chegamos a um acordo, faltam apenas questões jurídicas. Nessa parceria vamos atuar de várias formas, tanto no conhecimento e tecnologia como na troca de informações entre as instituições”, disse.

Trabalhos

Os estudos baseiam-se na criação de mecanismos de vigilância toxicológicos associados ao mercúrio para garantir a saúde da população ribeirinha.

“A ideia é encontrar biomarcadores que possam refletir alterações no ambiente em curto espaço de tempo e a partir daí criar índices de vigilância que poderão ser adotados em novos empreendimentos hidrelétricos no setor na região amazônica”, explica o pesquisador da UnB, Luiz Fabrício Zara.

Ainda de acordo com Zara, a pesquisa irá utilizar um novo biomarcador para medir os níveis de mercúrio em diferentes amostras.

“Para o desenvolvimento desse novo biomarcador iremos utilizar uma tecnologia chamada de Metalômica, que é onde você separa as suas proteínas e busca depois possíveis metaloproteínas (proteínas que contém um ou mais íons metálicos em sua estrutura). É uma interface entra biologia e a química analítica. Com isso iremos trabalhar com amostras de peixe e leite materno”.

A escolha do peixe, segundo o pesquisador, está diretamente relacionada à cadeia alimentar.

Antes do peixe ser consumido, ele já acumulou - por meio da biomagnificação e bioacumulação -, um alto teor de mercúrio em sua estrutura, podendo assim apresentar uma ameaça para a população que o consome. 

Se tornando um bioindicador, as proteínas do peixe serão extraídas e separadas em busca da maior ligação de proteínas com o mercúrio.

“A outra fonte, direcionado para o leite materno, é devido à necessidade de aprofundarmos esse conhecimento do mecanismo de transferência desse metal, que é neurotóxico, via o leite. O potencial de toxidade nessa primeira fase da vida criança é grande”, alerta o pesquisador.

Após o consumo do peixe pelo homem, o mercúrio presente na espécie pode atacar o sistema nervoso central. Os sintomas podem ser reconhecidos com tremores, perda de visão periférica, de olfato, de paladar e em alguns casos, levar a morte.
“Por isso é importante entender a dinâmica do mercúrio associada à expansão do setor hidrelétrico”, conclui Zara



ACRITICA


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Governo do Amazonas quer autorizar uso do mercúrio em garimpos

Proposta da SDS é a de que em cinco anos, os garimpos da região cheguem ao "mercúrio zero", nas atividades realizadas em todo o Estado

O mercúrio será utilizado nos garimpos de ouro dos Amazonas
O mercúrio será utilizado nos garimpos de ouro dos Amazonas (Ivani Valentim / Freelancer)


O mercúrio será utilizado nos garimpos de ouro dos Amazonas que possuem licenciamento ambiental por pelo menos mais cinco anos, até que mecanismos de redução sejam aplicados na atividade para se chegar ao chamado "mercúrio zero". Esta é a perspectiva da secretária estadual do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Nádia Ferreira.

"Defendemos uma saída gradativa. A gente está mexendo numa cadeia que é grande. Acho que dá para alcançar esse objetivo reduzindo o uso (do mercúrio) nas balsas até chegar ao conteúdo zero. Vamos ter pesquisa, por exemplo, para ver a eficiência do cadinho (equipamento de amálgama do ouro e filtragem do mercúrio) para que o metal não precise mais ser usado", disse Nádia, após uma longa reunião na última terça-feira  (14) para rediscutir o uso do mercúrio nos garimpos.

A nova discussão sobre o assunto ocorreu após uma onda de protestos de organizações do movimento social e ambiental que questionaram a permissão do mercúrio nos garimpos do Amazonas e depois que o Ministério Público Federal (MPF-AM) recomendou que a Resolução Estadual 011-2012, que dá ordenamento ao licenciamento ambiental para a atividade garimpeira no Estado, não seja aplicada até que as dúvidas sejam esclarecidas.

A proibição imediata do mercúrio chegou a ser cogitada dias após (final de julho) a manifestação do MPF pela própria secretária Nádia Ferreira, mas ela novamente reconsiderou a ideia.

A permissão do mercúrio no garimpo integra uma lista de normas da Resolução Estadual 011-2012 elaborada pela SDS em conjunto com outros órgãos ambientais e de mineração e aprovada pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente do Amazonas (Cemaam). Mas a citação do nome "mercúrio" e a falta de maiores esclarecimentos sobre seu uso tornou-se o ítem mais polêmico do documento.

Polêmica
 
A julgar pelo clima de tensão velada identificada na reunião, a permissão do uso do mercúrio deverá ser um tema que ainda renderá muita polêmica. Sequer a meta do mercúrio zero, uma perspectiva que vem sendo articulada por países que discutem o Tratado Internacional do Mercúrio, em termos ainda muito recentes, é unanimidade.

O assessor da Secretaria Estadual de Mineração e Recursos Hídricos, Miguel Martins, mostrou-se pessimista e disse que "mercúrio zero" no mundo não vai acontecer nunca". Ele referiu-se ao lobby da indústria bélica, da indústria farmacêutica e a hegemonia da China em manter minas de mercúrio. "Podemos ter um uso controlado do cadinho e conscientizar as pessoas e fazer uma fiscalização séria. Mas não tem mercúrio zero" , disse durante sua participação da reunião.

O coordenador-geral da Fundação Vitória Amazônica (FVA), Carlos Durigan, sugeriu que, ao invés de aplicar uma resolução que vale para todo o Estado, a SDS implemente uma "ação modelo" no rio Madeira com as cooperativas que já atuam no garimpo para saber se este projeto irá funcionar em uma área específica. Caso o resultado seja positivo, só então poderá se expandir para outras áreas.

Discussão
 
As propostas apresentadas no encontro de terça-feira vão ser discutidas e sistematizadas em novas reuniões. Representantes de organizações e instituições que integram o Cemaam farão parte de dois grupos formados durante a reunião. O grupo técnico-científico se reunirá nesta quinta-feira (16) e o jurídico na próxima terça-feira (21).

Conforme Nádia Ferreira, uma reunião extraordinária vai elaborar uma versão definitiva da Resolução, já com as contribuições que serão aceitas. A data ainda não foi definida.

Zoneamento
 
Criticada pelo seu conteúdo superficial (no entendimento dos movimentos sociais e ambientalistas), a Resolução vai ganhar uma versão definitiva enriquecida com novos dados.  

São temas envolvendo aspectos de controle dos equipamentos da lavra, formas de fiscalização e informações científicas para ajudar a esclarecer as consequências do mercúrio na saúde do ser humano e no meio ambiente.

Uma das sugestões mais vigorosas apresentadas na reunião foi a criação de um zoneamento do uso do mercúrio no Estado para que aplicação das normas não seja para todo o Estado, sem distinguir as especificadas de cada calha de rio.

A proposta foi um alerta apresentado pelo pesquisador Bruce Forsberg, considerado a principal autoridade científica do assunto na região amazônica, de que áreas de rios de água preta (como é o caso da região do Alto Rio Negro) não podem ter garimpos que utilizam o mercúrio.

Estas regiões, cujas características hídricas são as áreas alagadas (sobretudo igapós), já possuem altíssimo teor de mercúrio natural e o despejo de mercúrios extra resultaria em graves consequências para a saúde humana e para o meio ambiente.

 “É mais perigoso desenvolver atividade de garimpo no rio Negro. É contraindicado. O rio Madeira tem poucas área alagáveis e, embora tenha um índice razoável de mercúrio natural, a chamada ‘metilação’ não é tão evidente e, por conseguinte, é menos ameaçadora. Quanto ao rio Solimões, somente agora, com uma pesquisa recente, sabemos que ele também pode ter mercúrio em seu ambiente, independente de garimpos. Isso significa que tem certas áreas com risco maior para ser usado o mercúrio”, disse.

Outra preocupação de Bruce foi com os ribeirinhos, cuja alimentação é prioritariamente o peixe. Conforme o pesquisador a cadeia alimentar pode ser seriamente afetada pelo mercúrio, mesmo nas áreas onde o metal não seja tão concentrado. “Há peixes contaminados. Por isso é preciso saber se o Estado é capaz de fiscalização. Outra necessidade é investir em pesquisa para saber quanto de mercúrio está sendo jogado”, disse Bruce.

Assim como a proposta de Bruce, que fez uma breve e didática apresentação sobre a origem e a presença do mercúrio em várias partes do mundo, outras sugestões deverão ser incorporadas no novo "ajuste" da Resolução, segundo Nádia.

Quem também se manifestou foi o diretor-presidente do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), Fernando Burgos. Ele disse que o DNP aprova Resolução "com restrições" e que ela pode "ficar omissa" diante de pelo menos três legislações federais referentes à mineração e de disciplinamento do uso do mercúrio.

Pontos 
. Segundo dados apresentados na reunião, com base em pesquisa da Marinha do Brasil, existem 894 balsas cadastradas que atuam em garimpos no rio Madeira

. A estimativa é que 3 mil garimpeiros atuem somente nesta região.

. Na calha do rio Madeira, a atividade fica a cargo de três cooperativas. Uma delas, porém, possui dois processos de licenciamento que dão direito a atuar em duas áreas.

. A área de abrangência das cooperativas no rio Madeira é de 580 quilômetros de rio, segundo o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam).

ELAÍZE FARIAS

domingo, 8 de julho de 2012

Documento alerta o uso de mercúrio nos garimpos do AM

Na tentativa de regularizar os garimpos do Amazonas, resolução da CEMAA, acaba por permitir que metal pesado e nocivo à saúde seja despejado nos rios

Localizado no km 180, da Transamazônica, garimpo irregular já havia sido interditado em 2011
Mercúrio é nocivo ao meio ambiente e à saúde (Clóvis Miranda - 01.2007)

A liberação do uso de mercúrio nos garimpos do Amazonas, conforme autoriza a resolução nº 11/12, do Conselho Estadual de Meio Ambiente do Estado do Amazonas (CEMAA), publicada no Diário Oficial do Estado (DOE-AM), no último dia 15 de junho, resultou em um alerta, por meio de uma carta aberta ao governador Omar Aziz, elaborada pelo Museu da Amazônia (Musa).
O documento chama a atenção para o fato de que apesar da resolução ter por finalidade regularizar a atividade garimpeira no Estado, para tirá-la da clandestinidade, em contrapartida acaba prejudicando o meio ambiente, em especial os rios, uma vez que o mercúrio é um metal nocivo à saúde.     
“Ao ensejar a contaminação de alimentos que não são controlados diariamente, o Estado obriga o cidadão a ingeri-los, sem opção de recusá-los. Por outro lado, a opção de não mais consumir peixe prejudicará, não só o sistema de segurança alimentar do Estado e a comunidade dos pescadores, como também a economia local”, cita a carta.

ACRITICA