Alimento
com alto valor nutricional, rico em selênio, proteínas, vitaminas, e
ácidos graxos insaturados, a castanha-do-brasil está com sua cadeia
produtiva ameaçada pela contaminação de micotoxinas (toxinas produzidas
por fungos) com potencial cancerígeno.
Pesquisadores
de várias unidades da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(Embrapa), universidades e instituições de pesquisa, articulados no
projeto de pesquisa Micocast, sob a liderança da Embrapa Acre, buscam
contribuir para o desenvolvimento de novas tecnologias e gerar
informações científicas que auxiliem no diagnóstico e controle da
contaminação da castanha-do-brasil por essas toxinas.
A
informação foi apresentada pela pesquisadora da Embrapa Amazônia
Ocidental, Daniela Bittencourt, durante a palestra “Micotoxinas em
amêndoas da castanheira-do-brasil”, realizada na programação do 45°
Congresso Brasileiro de Fitopatologia, encerrada nessa quinta-feira
(23), em Manaus.
A contaminação está
relacionada às condições de armazenamento, secagem e exposição das
castanhas à umidade relativa da região, facilitando a ocorrência de
aflatoxinas (do tipo B1, B2, G1 e G2) em toda a cadeia produtiva da
castanha-do-brasil. As aflatoxinas são produzidas principalmente pelos
fungos Aspergillus flavus e Aspergillus parasiticus, e são potencialmente cancerígenas para o ser humano.
A
pesquisadora expôs um panorama da situação de contaminação das amêndoas
de castanha-do-brasil, destacando que é um problema que coloca em risco
a saúde pública e também compromete a economia da região amazônica,
pois o produto que antes era exportado para o mercado europeu passou a
ser recusado, diante de medidas mais restritivas da comunidade européia
em relação aos níveis tolerados de aflatoxina, o que desencadeou redução
de mais de 90% nas exportações, a partir dessas restrições.
“Os
lotes contaminados de castanha que não puderam ser exportados passaram a
ser redirecionados ao mercado interno menos restritivo, constituindo-se
em um risco para a saúde da população brasileira”, informou a
pesquisadora.
“Isso não quer dizer
que comer castanha necessariamente dá câncer”, esclareceu a pesquisadora
Daniela, informando que dependendo da quantidade e frequência do
consumo de castanhas contaminadas com aflatoxinas, combinadas com
fatores do organismo de cada indivíduo, isso pode tornar propício o
desenvolvimento de câncer.
Outro
aspecto citado pela pesquisadora da Embrapa, é que pesquisas mostram que
a concentração de aflatoxinas reduz quando se adota boas práticas de
beneficiamento. Havendo investimento tecnológico e organização da cadeia
produtiva da castanha-do-brasil para se ter um escoamento mais rápido,
diminuindo o tempo de armazenamento e adotando melhorias no
beneficiamento, o nível de aflatoxina presente nas amêndoas diminuirá.
Exemplo
A Bolívia foi citada pela pesquisadora como o país que tem investido em
processamento para vender suas castanhas com melhor qualidade que o
Brasil, dando um salto nas exportações, que responde por 70% do mercado
mundial de castanha, sendo que grande parte de sua produção é comprada
do Brasil, que produz de 45 a 60 mil toneladas por ano e emprega 60 mil
famílias. Grande parte das castanhas-do-Brasil que deixaram de ser
vendidas para o mercado europeu, são vendidas para a Bolívia que as
beneficia e exporta, agregando valor ao produto.
“Estamos perdendo mercado e divisas”, alertou a pesquisadora.
Nesse
contexto, a Embrapa vem dando sua contribuição em pesquisas voltadas
para a melhoria da cadeia produtiva e da qualidade da
castanha-do-Brasil, que é um fonte importante de alimento e também de
atividade de produção florestal não-madeireira, na Amazônia.
Pesquisa
Um passo importante foi a caracterização da cadeia produtiva para
identificar quais etapas eram mais afetadas por altos níveis de
contaminação por aflatoxina, isso foi realizado a partir de estudos no
Pará e Acre, com participação das unidades da Embrapa nesses estados,
por meio do projeto Safenut, realizado de 2006 a 2008, sob coordenação
do Centro de Cooperaçao Internacional em Pesquisa Agronômica para o
Desenvolvimento (Cirad), com sede na França. Essa caracterização
continua, com a participação da Embrapa, agora nos estados do Amazonas e
Amapá, por meio do projeto em rede Micocast, iniciado em 2009 com
término para o final de 2012.
Os
esforços desse projeto estão direcionados para inovações tecnológicas
para o controle da contaminação da castanha-do-brasil por aflatoxinas.
Isso inclui estudos epidemiológicos e estudos sobre a diversidade da
população dos fungos, além do desenvolvimento de alternativas
tecnológicas para aprimorar a secagem de forma mais rápida e eficiente e
ainda o desenvolvimento de métodos rápidos e menos onerosos de detecção
de fungos produtores de aflatoxinas e micotoxinas na castanha.
Daniela
Bittencourt juntamente com o pesquisador do Instituto Nacional de
Pesquisas da Amazônia (Inpa), Rogério Hanada, pesquisam a diversidade de
fungos isolados e identificaram, por meio da biologia molecular, os
fungos que mais ocorrem e produzem aflatoxinas nas castanhas. Os
resultados parciais mostram diversidade genética elevada desses fungos.
De
acordo com ela, os resultados serão importantes para desenvolver uma
ferramenta molecular para identificação de fungos do gênero Aspergilus spp.
produtores de micotoxinas no fruto. A pesquisadora explicou que
atualmente, a técnica oficial de detecção da aflatoxina e outras
micotoxinas é a cromatografia, que detecta a toxina, mas não o fungo,
não sendo recomendada no monitoramento da cadeia produtiva.
“A
identificação precisa destes organismos associada à melhor compreensão
dos mecanismos moleculares que desencadeiam a produção de aflatoxinas
por Aspergillus spp., possibilitará o desenvolvimento de um
método diagnóstico molecular rápido, eficiente e sensível, que não onere
demasiadamente o custo final do produto, ao mesmo tempo em que garanta a
sua qualidade”, informou a pesquisadora.
ACRITICA