Proposta da SDS é a de que em cinco anos, os garimpos da região
cheguem ao "mercúrio zero", nas atividades realizadas em todo o Estado
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| O mercúrio será utilizado nos garimpos de ouro dos Amazonas
(Ivani Valentim / Freelancer) |
O
mercúrio será utilizado nos garimpos de ouro dos Amazonas que possuem
licenciamento ambiental por pelo menos mais cinco anos, até que
mecanismos de redução sejam aplicados na atividade para se chegar ao
chamado "mercúrio zero". Esta é a perspectiva da secretária estadual do
Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Nádia Ferreira.
"Defendemos
uma saída gradativa. A gente está mexendo numa cadeia que é grande.
Acho que dá para alcançar esse objetivo reduzindo o uso (do mercúrio)
nas balsas até chegar ao conteúdo zero. Vamos ter pesquisa, por exemplo,
para ver a eficiência do
cadinho
(equipamento de amálgama do ouro e filtragem do mercúrio) para que o
metal não precise mais ser usado", disse Nádia, após uma longa reunião
na última terça-feira (14) para rediscutir o uso do mercúrio nos
garimpos.
A
nova discussão sobre o assunto ocorreu após uma onda de protestos de
organizações do movimento social e ambiental que questionaram a
permissão do mercúrio nos garimpos do Amazonas e depois que o Ministério
Público Federal (MPF-AM) recomendou que a Resolução Estadual 011-2012,
que dá ordenamento ao licenciamento ambiental para a atividade
garimpeira no Estado, não seja aplicada até que as dúvidas sejam
esclarecidas.
A
proibição imediata do mercúrio chegou a ser cogitada dias após (final
de julho) a manifestação do MPF pela própria secretária Nádia Ferreira,
mas ela novamente reconsiderou a ideia.
A permissão do mercúrio no garimpo integra uma lista de normas da
Resolução Estadual 011-2012
elaborada pela SDS em conjunto com outros órgãos ambientais e de
mineração e aprovada pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente do Amazonas
(Cemaam). Mas a citação do nome "mercúrio" e a falta de maiores
esclarecimentos sobre seu uso tornou-se o ítem mais polêmico do
documento.
Polêmica
A
julgar pelo clima de tensão velada identificada na reunião, a permissão
do uso do mercúrio deverá ser um tema que ainda renderá muita polêmica.
Sequer a meta do mercúrio zero, uma perspectiva que vem sendo
articulada por países que discutem o Tratado Internacional do Mercúrio,
em termos ainda muito recentes, é unanimidade.
O
assessor da Secretaria Estadual de Mineração e Recursos Hídricos,
Miguel Martins, mostrou-se pessimista e disse que "mercúrio zero" no
mundo não vai acontecer nunca". Ele referiu-se ao lobby da indústria
bélica, da indústria farmacêutica e a hegemonia da China em manter minas
de mercúrio. "Podemos ter um uso controlado do cadinho e conscientizar
as pessoas e fazer uma fiscalização séria. Mas não tem mercúrio zero" ,
disse durante sua participação da reunião.
O
coordenador-geral da Fundação Vitória Amazônica (FVA), Carlos Durigan,
sugeriu que, ao invés de aplicar uma resolução que vale para todo o
Estado, a SDS implemente uma "ação modelo" no
rio Madeira
com as cooperativas que já atuam no garimpo para saber se este projeto
irá funcionar em uma área específica. Caso o resultado seja positivo, só
então poderá se expandir para outras áreas.
Discussão
As
propostas apresentadas no encontro de terça-feira vão ser discutidas e
sistematizadas em novas reuniões. Representantes de organizações e
instituições que integram o Cemaam farão parte de dois grupos formados
durante a reunião. O grupo técnico-científico se reunirá nesta
quinta-feira (16) e o jurídico na próxima terça-feira (21).
Conforme
Nádia Ferreira, uma reunião extraordinária vai elaborar uma versão
definitiva da Resolução, já com as contribuições que serão aceitas. A
data ainda não foi definida.
Zoneamento
Criticada
pelo seu conteúdo superficial (no entendimento dos movimentos sociais e
ambientalistas), a Resolução vai ganhar uma versão definitiva
enriquecida com novos dados.
São
temas envolvendo aspectos de controle dos equipamentos da lavra, formas
de fiscalização e informações científicas para ajudar a esclarecer as
consequências do mercúrio na saúde do ser humano e no meio ambiente.
Uma
das sugestões mais vigorosas apresentadas na reunião foi a criação de
um zoneamento do uso do mercúrio no Estado para que aplicação das normas
não seja para todo o Estado, sem distinguir as especificadas de cada
calha de rio.
A
proposta foi um alerta apresentado pelo pesquisador Bruce Forsberg,
considerado a principal autoridade científica do assunto na região
amazônica, de que áreas de rios de água preta (como é o caso da região
do Alto Rio Negro) não podem ter garimpos que utilizam o mercúrio.
Estas
regiões, cujas características hídricas são as áreas alagadas
(sobretudo igapós), já possuem altíssimo teor de mercúrio natural e o
despejo de mercúrios extra resultaria em graves consequências para a
saúde humana e para o meio ambiente.
“É
mais perigoso desenvolver atividade de garimpo no rio Negro. É
contraindicado. O rio Madeira tem poucas área alagáveis e, embora tenha
um índice razoável de mercúrio natural, a chamada ‘metilação’ não é tão
evidente e, por conseguinte, é menos ameaçadora. Quanto ao rio Solimões,
somente agora, com uma pesquisa recente, sabemos que ele também pode
ter mercúrio em seu ambiente, independente de garimpos. Isso significa
que tem certas áreas com risco maior para ser usado o mercúrio”, disse.
Outra
preocupação de Bruce foi com os ribeirinhos, cuja alimentação é
prioritariamente o peixe. Conforme o pesquisador a cadeia alimentar pode
ser seriamente afetada pelo mercúrio, mesmo nas áreas onde o metal não
seja tão concentrado. “Há peixes contaminados. Por isso é preciso saber
se o Estado é capaz de fiscalização. Outra necessidade é investir em
pesquisa para saber quanto de mercúrio está sendo jogado”, disse Bruce.
Assim
como a proposta de Bruce, que fez uma breve e didática apresentação
sobre a origem e a presença do mercúrio em várias partes do mundo,
outras sugestões deverão ser incorporadas no novo "ajuste" da Resolução,
segundo Nádia.
Quem
também se manifestou foi o diretor-presidente do Departamento Nacional
de Produção Mineral (DNPM), Fernando Burgos. Ele disse que o DNP aprova
Resolução "com restrições" e que ela pode "ficar omissa" diante de pelo
menos três legislações federais referentes à mineração e de
disciplinamento do uso do mercúrio.
Pontos
. Segundo dados apresentados na reunião, com base em pesquisa da Marinha
do Brasil, existem 894 balsas cadastradas que atuam em garimpos no rio
Madeira
. A estimativa é que 3 mil garimpeiros atuem somente nesta região.
. Na calha do rio Madeira, a atividade fica a cargo de três cooperativas.
Uma delas, porém, possui dois processos de licenciamento que dão
direito a atuar em duas áreas.
.
A área de abrangência das cooperativas no rio Madeira é de 580
quilômetros de rio, segundo o Instituto de Proteção Ambiental do
Amazonas (Ipaam).
ELAÍZE FARIAS