Cerca
de 3 mil moradores incendiaram propriedades da Funai e da Funasa. Os
índios são acusados pelo desaparecimento de três homens na rodovia
BR-230, que passa dentro da reserva indígena. Só nesta quinta (26) a
polícia se pronunciou oficialmente
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| Populares usaram combustível, pedras, rojões de fogo e coquetéis
molotov para destruir propriedades voltadas aos indígenas em Humaitá
(Raolin Magalhães/Freelancer) |
Um
clima de guerra tomou conta do município amazonense de Humaitá (a 675
quilômetros a sul de Manaus) nos últimos dois dias e fez com que 141
índios de várias etnias que moram na Terra Indígena de Tenharim pedissem
refúgio do Exército Brasileiro no local. A reserva Tenharim fica entre
Humaitá, Apuí e Manicoré, e é cortada pela rodovia BR-230, a
Transamazônica. A população acusa os índios de sequestro.
Em
alojamentos do 54º Batalhão de Infantaria de Selva, na própria cidade
de Humaitá, estão abrigados 34 crianças indígenas, seis idosos, 38
mulheres - algumas delas grávidas -, e 65 homens. Segundo o Exército,
esses 141 refugiados estavam no perímetro urbano retornando para as
aldeias, mas foram impedidos de voltar após serem ameaçados por populares durante protestos na noite de quarta (25).
Alguns dos 141 índios estavam recebendo atendimento médico na Casa de Saúde do Índio, local administrado pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa),
e tiveram que fugir da confusão. “A maioria mulheres e crianças estão
com problemas de saúde. Os índios não podiam retornar. A via de acesso à
aldeia estava bloqueada (pela população)”, declarou o coronel Mendonça,
do Comando Militar da Amazônia (CMA).
“Um
cacique Tenharim e um representante da Funai procuraram o comandante do
54º Batalhão para que a integridade física dos índios fosse garantida. O
Exército recebeu os índios como receberia qualquer pessoa”, declarou
Mendonça. Segundo ele, os indígenas tiveram sua integridade física
ameaçada e a situação no local é considerada crítica.
Mais
de 3 mil pessoas invadiram, depredaram e incendiaram prédios da
Fundação Nacional do Índio (Funai), da Funasa, no mínimo dez veículos
(como carros e caminhonetes) e duas embarcações de propriedade da União,
que estavam atracadas na orla de Humaitá. Os 186 policiais militares
que atuam na cidade, contando até com quem estava de folga e foi
convocado emergencialemtne, não conseguiram conter a população.
A
região possui histórico de conflitos e tensão entre grileiros,
invasores e os índios. Essa última revolta contra os indígenas de
Tenharim começou depois que três homens desapareceram na rodovia BR-230,
no último dia 16 de dezembro, e nenhuma autoridade deu retorno para os
familiares sobre as investigações. Pessoas disseram terem visto os
homens pela última vez em um carro preto no KM 85 da estrada.
O
desaparecimento do trio foi registrado e a Polícia Federal de Rondônia
(PF-RO) se responsabilizou pelo caso. Com mais de uma semana sem
respostas do Poder Público, familiares e amigos se revoltaram contra
aqueles que eles consideram culpados: os indígenas.
Durante
o protesto, a população usou barris de combustível, pedras, rojões de
fogos de artifício e coquetéis molotov contra as propriedades da União.
“O nosso efetivo não deu conta, a população fez os policiais militares
recuarem após um longo confronto. Eram 3 mil contra 100”, conta o
vereador Edvaldo França, de Humaitá, que é sargento da Polícia Militar
(PM) de licença.
Reforço
O
Comando de Policiamento do Interior do Amazonas (CPI) enviou de Manaus
para Humaitá, na manhã desta quinta (26), duas aeronaves com 38
policiais militares para reforçar o trabalho de contenção das revoltas. O
clima de calmaria e tranquilidade nas ruas de Humaitá na manhã desta
quinta contrastava com a cenário de guerra da noite anterior.
Na última terça-feira (24), cerca de 30 familiares e amigos tinham bloqueado o acesso de carros e pessoas à orla
de Humaitá durante protesto por respostas da PF-RO. O grupo empunhava
cartazes nas mãos enquanto uma fila de carros e caminhões se formava
pela estrada de acesso ao porto. Os manifestantes teriam dado prazo até
quarta para receberem algum posicionamento das autoridades.
Desaparecidos
Desapareceram
no dia 16 de dezembro o professor Stef Pinheiro de Souza, que mora
Apuí; o gerente da Eletrobrás Amazonas Energia Aldeney Ribeiro Salvador,
que trabalha na comunidade do Santo Antônio do Matupi, em Manicoré; e o
representante comercial Luciano da Conceição Ferreira Freire, que
reside em Humaitá.
“O
caso já saiu do âmbito familiar. Agora não são mais apenas os
familiares e amigos que estão revoltados, é toda a população”, afirma
Israel Júnior, parente do desaparecido Luciano. Segundo ele, as pessoas
estão vendo a situação como um descaso das autoridades. “Eles
desapareceram no dia 16, dois dias depois prestaram queixa e até agora
ninguém fez nada, nem sequer emitiram uma nota oficial”, diz.
Investigação
De
acordo com Israel, a PF-RO afirmou que, com seu efetivo de 30 pessoas,
não consegue entrar na mata da reserva, área federal, para realizar as
buscas. “Os índios dizem que os rapazes não estão lá, mas também não
permitem a entrada de ninguém. Afirmam que só vão autorizar se for por
meio da Funai ou se for uma decisão judicial federal”, disse Israel.
A
Funai de Humaitá informou no início da semana que estava participando
das investigações e intermediava o trabalho da PF-RO dentro da reserva
de Tenharim.
Segundo
Israel, a PF de Rondônia, que detém jurisdição da área, chegou a ir até
os portões da reserva indígena dos Tenharim, mas não foi autorizada a
entrar para realizar as buscas. “A PF pediu que os próprios índios
fizessem as buscas, o que revoltou ainda mais a população”, diz um
morador do município que pediu para não ser identificado.
Após
dez dias do desaparecimento, a Polícia Federal de Rondônia se
pronunciou por meio de nota. Segundo o órgão, foi instaurado um
inquérito sobre o caso e foram realizadas buscas em locais que não foram
informados. De acordo com a PF-RO, nenhum resultado foi alcançado
durante as investigações até o momento.
A assessoria da Funai também disse que enviaria nota sobre o caso.
VINICIUS LEAL*