Pesquisadores avaliam o tipo, o período em que apareceu e como o fenômeno evoluiu, entre outras análises
| Fenômeno climático La Niña contribuiu para a cheia histórica de 2012, que castigou Manaus e outros 53 municípios |
Informações
divulgadas, no dia 12 de março de 2012, pelo Instituto Nacional de
Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) e pelo Instituto Max Planck de Química
(MPIC) indicavam que o Amazonas iria passar por uma cheia recorde este
ano.
A estimativa era de que as águas
atingissem o nível de 29,67m (margem de erro de 29,29-30,05 m), apenas
10 cm abaixo que a maior cheia já registrada em 2009 (29,77m). A
previsão foi fortalecida pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) no dia
31 março, o qual previu uma cheia de 30,13 m (margem de erro de 40 cm).
Com
base nas informações, os pesquisadores do Inpa e do CPRM sabiam desde o
segundo semestre de 2011 que choveria acima da média.
Contudo,
conforme o pesquisador do Inpa, Antônio Manzi, isso não significa
recorde ou extrema, pois são previsões com base na cota do Rio Negro no
Porto de Manaus, o qual não é influenciado pelo o que acontece em toda a
bacia do Rio Solimões. Além disso, sempre há erros médios, em torno de
40 cm, dependendo do modelo usado.
Conforme Manzi, uma das prováveis causas para a cheia recorde de 2012 foi o fenômeno climático La niña.
Por isso, os pesquisadores que participam do grupo estão avaliando o
tipo, o período em que apareceu e como o fenômeno evoluiu.
Também
estão fazendo análises de distribuição de temperatura dos oceanos
Atlântico e Pacífico, a influência da massa de água sobre as sub-bacias
do Rio Negro e Solimões e os valores mensais de chuva, a partir de 1996.
Doutor
em Física da Atmosfera pela Universidade Paul Sabatier (Toulouse III),
França, Manzi explicou que quando se estuda o clima existem muitas
variáveis. Isso se deve ao fato, por exemplo, de que já ocorreram outras
La niñas que não chegaram a provocar cheias tão intensas no Amazonas.
"Estamos
estudando várias questões. Uma delas é a vazante de 2010 – período em
que foi registrada a cota mais baixa nos últimos 110 anos no Porto de
Manaus. Em 2010 e 2011 houve a maior variação do rio entre os valores
mínimo e o máximo registrados, o qual foi de 15 metros. Isso é quase 50%
da média histórica, que é de 10,10 metros. São quase 5 metros acima.
Esse ano, o rio já encheu 12,60 metros. Significa que a cheia desse ano
envolve não somente configurações específicas de temperatura dos
oceanos, mas está associado ao regime hidrológico de chuva. Ainda não
temos uma resposta final”, salientou.
Os
pesquisadores também estão avaliando o histórico dos últimos anos de
estoque de água nas bacias e sub-bacias do Rio Amazonas, especialmente,
as sub-bacias dos Rios Solimões e Negro.
Efeito La Niña
As La niñas aconteceram durante todo o segundo semestre do ano passado, afetando o período chuvoso. Nos meses de outubro, novembro e dezembro, enfraqueceram. Todavia, ainda havia La niñas 3 e 4 atuando até o mês de abril de 2012, embora fraca.
“Além
desses fenômenos existem outros, mas ainda estamos avaliando. Não é
possível divulgar agora”, lamentou e acrescentou que tiveram La niñas praticamente em quase todos os setores, principalmente no segundo semestre do ano passado.
Cheia e secas intensas
Conforme o pesquisador, não se pode dizer com certeza se as cheias e as secas são uma conseqüência da variabilidade natural do clima ou se estão sendo afetadas pelas mudanças climáticas globais.
Mas,
segundo o pesquisador, espera-se que haja a intensificação da
variabilidade natural do clima. Significa que os anos mais frios e mais
quentes podem se tornar mais frequentes. Da mesma forma, os períodos
secos e chuvosos, com tempestades mais severas.
"O
que está acontecendo, em principio, poderia ser justificado pelas
mudanças climáticas globais, mas não conhecemos muito bem a
variabilidade natural do clima. Isso se deve ao fato de que há escalas
de variação interanuais, decadais e seculares. Mas é provável que as
mudanças climáticas estejam atuando”, explicou Manzi.
Segundo
ele, se haverá nos próximos anos eventos extremos, não dá para dizer no
momento. O certo é que os pesquisadores têm observado nos últimos 25
anos tendências de aumento de cheias e vazantes. Manzi disse que a série
de acompanhamento que têm hoje é importante. Contudo, se tivessem
medidas de outros séculos, teria mais confiança nas análises, pois a
série é curta do ponto de vista climático, mas foram registrados anos
extremamente secos, como em 1923 e 1963.
Conforme Manzi, a maioria dos fenômenos La niñas está associada ao aumento das chuvas em boa parte da Amazônia, sendo um sinal estatístico forte.
Ele
pontuou que nem todas têm a mesma configuração. Isto é, elas podem ser
divididas em quatro tipos, do ponto de vista climatológico. Os tipos 1 e
2 ocorrem próximas da Costa da América do Sul (Oeste), enquanto a 3 e 4
na parte central do Oceano Pacífico (Leste).
Entretanto, dependendo da época do ano elas podem ser mais ou menos fortes.
“Tivemos La niñas
muito fortes no início e durante a primeira metade da estação chuvosa. O
efeito é a produção de quantidades de chuvas mais fortes”, salientou.
Nenhum comentário:
Postar um comentário